Diogo Brunner

distraídos venceremos

Sobre limiares, biografias e biografados.

Biografias e autobiografias: A eterna questão do limiar entre verdade e ficção.


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Há uma tendência na literatura contemporânea da publicação de biografias, autobiografias, livros de memórias, auto-ficção, e assim por diante, sempre criando essas “categorias” de forma a enquadrar o produto a ser vendido dentro de um determinado segmento. Assim como demonstra um desejo de culto à personalidade e uma curiosidade para além da obra de determinado artista, demonstra o desejo voyeurístico de invadir os meandros mais íntimos da vida de uma pessoa pública.

Particularmente as biografias sempre suscitam a discussão sobre até onde é possível falar em verdades. Os escritores ou jornalistas que escrevem biografias podem simplesmente se enganar, ou errar uma fonte, ou, inclusive, colocar ali seus próprios julgamentos acerca do biografado. Diante disso falar em “verdade” ou em “fatos reais”, como, simplesmente por estarem presentes no livro correspondessem de fato à realidade, já torna a questão, no mínimo, passível de discussão.

A mais nova biografia de Jack Kerouac, escrita pelo britânico Barry Miles, é uma grande contribuição na descrição de fatos que talvez até então conhecêssemos pouco. Corrige (novamente, segundo “a verdade do autor”) fatos, nega outros, mostra curiosidades discutíveis, e se atém minimamente à própria escrita de Jack, a questão dos pseudônimos e da prosa espontânea, assim como insiste em pontos que provavelmente estariam numa revista de fofocas da época. Dessa forma, outra questão se coloca aqui: qual o ponto exato da biografia de uma personalidade? Avançamos em direção à sua vida pessoal mais íntima? Deve-se focar apenas em sua obra e em fatos que lhe confirmem o mito? Ou deve-se mostrar o tal lado obscuro? Possíveis fatos constrangedores?

Essas questões ocorrem uma vez que Miles, como um falastrão, parece se deleitar insistindo mais em aspectos polêmicos de Kerouac – criando uma espécie de julgamento moral muitas vezes – do que simplesmente narrando os fatos. Deve nesses casos o autor ter poder de julgamento sobre o biografado? Essa é sua função?

Obviamente não reduzo “Jack Kerouac – King of the Beats”, a um livro de fofocas, ou simplesmente um tratado moralista sobre o autor de “On the Road”. Longe disso. Mas são questões que saltam aos olhos justamente se a compararmos com autobiografias, ou livros de memória, como o volume “Só Garotos” de Patti Smith, ou “Crônicas” de Bob Dylan.

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Me atendo apenas ao primeiro – “Só Garotos” – Patti, diferentemente, narra segundo suas lembranças, anotações de diários, fotografias. Cria um painel extremamente interessante da sua geração, mais intimista, talvez menos grandioso ou midiático. Se podemos afirmar que tudo ali é verdade? Obviamente que não. Todo narrador escreve o que quer e da forma que quer, o que viu, da forma que viu. Mas se Patti Smith, em alguma passagem, ficcionaliza um acontecimento, ou aumenta sua relevância, não o faz em prejuízo do livro, mas em benefício de uma bela (e bem contada) historia.

Quando temos a intervenção de um elemento ficcional em uma historia “baseada em fatos reais”, em muitos casos é perceptível quando ela está em função de uma boa narrativa, de uma boa prosa, ou é apenas mais um elemento, que no caso das biografias, parecem almejar apenas que o autor alcance mais fama e que seja alçado a um nível mais alto do que o próprio biografado.


Diogo Brunner

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