Diogo Brunner

distraídos venceremos

Antes da Meia-Noite. O fim da trilogia de Celine e Jesse.

O fim da trilogia de Jesse e Celine não mata a poesia dos filmes anteriores.


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Foi com algum receio que fui assistir “Antes da Meia-Noite”. O terceiro filme da trilogia de Richard Linklater sobre o casal formado por Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke). Sou daqueles que viu e reviu os dois filmes anteriores – “Antes do amanhecer” (1995) e “Antes do Pôr-do-Sol” (2004) – sempre com a mesma sensação algo esperançosa e algo melancólica também. Havia ali ótimos diálogos, momentos sutis que passavam uma ideia que os verdadeiros encontros poderiam acontecer em qualquer esquina, num tropeção, um bar. Mas por outro lado essa “esperança” sempre esbarrava em alguma coisa e ficávamos com uma espécie de sensação pela metade. Não se concretizava na totalidade, mas a beleza estava presente na subida dos créditos. A melancolia se explicava pelo desejo do que não foi possível ou não foi mostrado.

Em “Antes da Meia-Noite” a melancolia se explica por um contato que passa do fantástico ao realista. Não sabíamos o que aconteceria entre os dois. Agora sabemos(?). Isso é ruim? Não creio. O roteiro criado por Linklater e o casal de atores traz questões interessantes que não estão ali para estragar nossa “esperança” de um amor romântico (na melhor acepção da palavra) que os dois primeiros filmes trazem. Mas sim para mostrar que também existe certa poesia – mesmo que de difícil compreensão – nas agruras da vida cotidiana.

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O medo de que Linklater estragasse aquele sentimento se transformou numa afirmação de que as coisas não são perfeitas e nem podem ser. Aliás, como sabemos, a perfeição pode ser bastante tediosa. A perfeição provavelmente não levaria Jesse e Celine a travarem diálogos tão intensos nem a exporem tão duramente suas feridas. Os filmes de amores perfeitos – e burguesamente realizados – normalmente são muito chatos porque simplesmente não nos refletem. A perfeição tentaria esconder que o tal do tempo é cruel e que devemos estar sempre atentos para tentar lidar pacificamente com ele.

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Por outro lado, é nas imperfeições que o final da trilogia resguarda poeticamente sua magia e a “ideia de amor” dos dois filmes anteriores. O cinema pode ser legitimamente um instrumento de fantasia, mas na história de Jesse e Celine eu prefiro saber e conseqüentemente sentir que as coisas são assim, o amor é droga pesada, a melancolia não é necessariamente ruim, e todos nós estamos condenados a entender que felicidade não é condição. É estado.


Diogo Brunner

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