Diogo Brunner

distraídos venceremos

Mario Bortolotto e suas canções para se tocar no inferno.

Republicando, atualizando...o céu tá feliz e talvez você entenda.



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Há tempos eu acompanho a obra do Mário Bortolotto. É uma obra que transita tresloucadamente entre a dramaturgia, literatura e a música. Com um pendor um pouco maior, no que diz respeito à quantidade, aos textos para o teatro. Mas Bortolotto é sobretudo um escritor rockeiro, se podemos dizer assim. Ao mesmo tempo que escreve, dirige e atua em suas peças, é vocalista e principal letrista da banda de rock Saco de Ratos. Procurem por aí, mergulhe.

Mas vamos nos ater a algo específico. Há algum tempo o cara lançou seu primeiro livro de contos intitulado “DJ – Canções para tocar no inferno”. A temática do Mário transita entre o submundo paulistano, as prostitutas, bares, bebedeiras, música. Quem se lembrou do nosso velho safado Bukowski está no caminho certo.

A primeira parte do livro é composta por contos com títulos de canções que vão de Jealous Guy do Lennon até Given the dog a bone do AC/DC, o que explica o nome da coletânea. Mas ao longo dos 22 contos do livro, divido em 3 partes, o que vemos é a habilidade em repetir uma temática, da qual o autor é exímio conhecedor, e por isso se torna inesgotável não caindo na mesmice. Bortolotto domina a arte de narrar a madrugada suja do centro da babilônia.

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Temos sujeitos solitários que apenas querem um pouco de paz. Temos copos de whisky vagabundo nas mãos de saxofonistas que não sabem para onde ir. Vemos os cachorros uivando para madrugada enquanto tentam um pedaço de comida nas latas de lixo do centro nervoso de São Paulo. Por todos eles notamos anjos flutuando que desceram para terra querendo saber de onde vinham aquelas notas melancólicas, a pedido de um Deus que em algum momento os esqueceu, e quem sabe agora sente uma espécie de remorso.

Destaco primeiramente o conto Knockin´on heaven´s door, música de Mr. Dylan, onde o sujeito chega no céu e começa a encontrar figuraças do tipo Paulo Leminski, Vinicius de Moraes e Paulo Francis (agora o grande Paulo de Tharso ta tocando o terror lá também) em bares e falam sobre os que ainda estão por aqui, sobre poesia e literatura. Segundo destaque vai para uma espécie de trilogia, onde um ex-pugilista, um sujeito enorme e agora massagista de clube de futebol, meio que repassa melancolicamente sua vida triste e solitária tendo como pano de fundo as copas do mundo de 50, 54 e 58.

Bortolotto sabe sobre o que escreve, vive na pele essa violência da cidade grande. Violência ora explícita (só lembrar os 3 tiros que levou num bar do teatro Parlapatões há tempos atrás atrás na praça Roosevelt), ora simbólica. Mas essa vivência faz toda diferença de, assim como Bukowski, não fazer da repetição temática um lugar de conforto criativo, mas sim de confronto, um confronto dolorido.

Diogo Brunner

distraídos venceremos.
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