Diogo Brunner

distraídos venceremos

Maradona by Kusturica

O documentário de Kusturica mostra a face humana de Maradona, um dos mais controversos ídolos do futebol mundial.


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Para os fãs de Galvão Bueno e do Brasil-nação-pátria-de-chuteiras não é fácil entender as sutilezas elefânticas que distanciam Pelé e Maradona. Não está em questão aqui a bola nos pés, o número de gols ou títulos, mesmo porque comparações desse tipo necessariamente teriam que levar em conta seus determinados momentos históricos.

Emir Kusturica, cineasta Sérvio que fez Underground (1995) entre outros, constrói um documentário – Maradona by Kusturica – sobre um dos maiores ídolos do futebol, mas onde o futebol nem sempre está em primeiro plano. Molda a figura humana de Maradona, o grande mito que não hesita em chorar, polemizar ou pedir perdão. O cara que escancarou sua vida e não viu o crescimento das filhas entorpecido pelas drogas que consumia. O cara que tem Guevara tatuado no braço e se mostra, de alguma forma, confuso politicamente, mas com um direcionamento muito transparente.

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Na Copa de 86, vencida pela Argentina, Maradona atinge seu auge ao fazer os dois gols contra a Inglaterra nas quartas-de-final. Um considerado o gol do século, o outro com a mão. De Deus. “Me senti roubando a carteira de um inglês”, diria gratificado Maradona. O auge não era apenas pela consagração futebolística. Como um revolucionário, Maradona vingava ali a opressão que seu povo sofrera, massacrado pelos Ingleses na Guerra das Malvinas, alguns anos antes. Devolvia o sangue derramado com genialidade malandra. Fato é que não soube lidar com a idolatria que o cercava, mas renasceu com a mesma garra febril que demonstrava em la cancha. Maradona não tem medo de soar arrogante porque também soube apanhar. O filme emociona com Dieguito cantando, chorando, destilando veneno, amando as filhas e agradecendo o braço forte da mulher que ama e que permaneceu sempre ao seu lado. Kusturica conduz o filme como um maestro, como um amigo prestando uma homenagem sincera.

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Também fizeram um filme para o Pelé, o Edson. O tal Pelé Eterno. Mas o Pelé não hesita em andar de mãos dadas com os maiores bandidos do futebol brasileiro; o Pelé adora aparecer nas câmeras em momentos chave para fazer auto-promoção; o Pelé nunca desce de um pedestal que só ele enxerga. Se Pelé foi melhor que Maradona? Que importa? O futebol é magia além dos campos, é manifestação cultural de um povo. Maradona encarna o espírito latino-americano de luta, de alma, de um humanismo que comporta erros e acertos. Algo muito em falta no mar do politicamente correto em que vivemos. Muitos jovens não se interessam pela história do Pelé, algo impensável na Argentina de Maradona. O golpe de misericórdia de Kusturica é trazer à cena Mano Chao, músico sem fronteiras, cantando uma música composta e tocada especialmente para Maradona. As lágrimas que correm naquele momento são isentas de qualquer julgamento que não seja sobre um cara que é e sempre foi ele mesmo. Viveu como quis. Pro bem e pro mal. Antes que mandem eu me mudar para Argentina eu peço que na dúvida assistam aos dois filmes e façam as devidas comparações, pois a própria forma dos filmes diz (ou esconde) muito sobre seus protagonistas.


Diogo Brunner

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