Diogo Brunner

distraídos venceremos

Autoficção: quais os limites do "eu"?

Autoficção é um conceito bastante em voga na literatura brasileira contemporânea. É possível, ou necessário, estabelecer limites éticos quando se fala de si ou sobre o outro?


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Pensando em criação literária, é cada vez mais difícil estipular quais os limites de uma obra. Penso em limites éticos. Ou em determinadas “regras”. Penso que, a priori, esses “limites” não devam existir quando falamos em criação. Mas por outro lado não é possível ignorar que eles são passíveis de discussão em determinados momentos.

A chamada autoficção, muito em voga na nossa literatura contemporânea, é um dos conceitos ou procedimentos literários que trazem essa discussão à tona. Até onde é possível expor o outro, ou o próprio eu, sem que isso acarrete uma violência ao representado? Sem falar das enfadonhas batalhas judiciais derivadas de linhas, teoricamente, mal traçadas.

Mas a grande questão é que autoficção, como o próprio nome diz, é ficção feita do “eu”. É repetitivo dizer que a realidade nunca pode ser transposta ao papel com fidelidade extrema. A realidade, a partir do momento que é colocada no papel, já está transformada. É outra coisa, mudou, transcendeu, desapareceu, iluminou, se esfarelou.

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Dizem que a autoficção dominará a produção literária deste século. Fenômeno, obviamente, muito ligado à internet. A exposição do “eu” de quem escreve, transmutado, através da linguagem, em criação estética, pode ser bastante transformador. Inclusive para o “outro”, que, segundo seu olhar de leitor, ressignificará a realidade pela segunda vez, segundo sua subjetividade e sensibilidade. Uma vez provocando a ressignificação da realidade, já podemos tirar a pecha de “umbiguista” que muitas vezes a autoficção carrega. Não é necessário dizer que isso não é uma generalização, mas sim uma reflexão que prefere ver a possibilidade transformadora da questão. A realidade que transforma e é transformada a partir do olhar do outro, nada mais é, a partir da nossa leitura, do que nosso próprio olhar sobre essa mesma realidade.

Fazendo parênteses, esse olhar para si, a partir do outro, do estranho, é algo que falta inclusive ao nosso conturbado momento de enfrentamentos político, onde o velho novo conservadorismo de mão única, fascista, ergue seus pesados braços contra professores e índios (para ficar em apenas dois casos específicos).

A autoficção parte da crônica. Se pensarmos em exemplos como Antônio Prata ou mesmo Xico Sá, dois cronistas bastante profícuos na atualidade, veremos muitas vezes que eles estão, ao escrever, falando deles próprios para, então, chegarem ao leitor. Cabe a este a tarefa de reinventar. Trazer para perto o que lhe diz respeito. Os limites éticos, que deram ensejo a essa pequena reflexão, eu os manteria longe da literatura. Já tem regra demais impregnando a dita vida cotidiana “real”.


Diogo Brunner

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