Diogo Brunner

distraídos venceremos

La Vie d´Adèle (ou Azul é a cor mais quente)

Em "Azul é a cor mais quente" o explícito é necessário. Só o que é explícito pode de fato chocar e provocar mudanças.


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Todos os dias Adèle abre o portão de sua casa. Ainda com pressa vai terminando de se vestir para enfrentar um tempo aparentemente frio. Um clima não muito diferente do momento que Adèle enfrenta na vida. As velhas dúvidas que surgem entre a adolescência e o começo da juventude. O relacionamento com os amigos, as curiosidades, a descoberta do sexo. Adèle parece sempre estar um pouco mais desconfortável do que suas amigas, um pouco mais inibida diante dos questionamentos, diante de assuntos sobre os quais, talvez, ela ainda não tenha ou nem queira ter a naturalidade/experiência necessária para entender.

Assim começa “Azul é a cor mais quente”, premiado em Cannes este ano e dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche.

Constituindo-se enquanto um filme único e fundamental pelo tipo de abordagem, Abdelattif conduz Adèle pelos meandros da sexualidade. A garota não se sente totalmente à vontade com a relação entre os seus próprios desejos e o que os outros desejam dela. Na sexualidade a questão não é apenas de repressão, mas sim de um prazer que não vem completo, é um prazer onde algo falta. Este sentimento de incompletude – e talvez aliado a uma dose de curiosidade – faz com que Adèle sinta-se muito desconsertada com um beijo que lhe é dado por uma amiga. Neste exato instante ela percebe que é possível sentir desejo por outra mulher. Um tipo de desejo que provavelmente – e de acordo com os ditames dos defensores da moral e dos bons costumes – ela aprendeu que só poderia sentir diante de um homem.

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Nos cabelos azuis de outra garota ela descobre não apenas a possibilidade de desejar mas também a possibilidade de se apaixonar. A partir dali o que veremos são simplesmente duas das atuações – com destaque para Adèle Exarchopoulos, que vive a personagem de mesmo nome – mais memoráveis do cinema neste século. Emma (Léa Seydoux) – a garota do cabelo azul – hipnotiza uma Adèle ainda titubeante diante do que fazer sobre uma situação a qual ela ainda não tem pleno domínio. Emma é artista e alguns anos mais velha, Adèle ainda está na escola. As duas viverão uma tórrida relação, não apenas sexual mas também de afeto. Emma tem um pouco a arrogância do artista, controla, comanda. Insiste para que Adèle – que deseja ser professora do maternal – faça algo mais interessante, que de fato lhe dê prazer. Um prazer estético, inclusive. Há uma constante tensão no ar. A família de Emma é liberal a de Adèle conservadora, o que explica muito o fato de Emma estar mais perto da liberdade enquanto Adèle ainda patina nas inseguranças. A família, no diz Kechiche, ainda é um fardo bastante pesado.

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Kechiche opta a maior parte do tempo por sequências longas e normalmente com a câmera bem fechada. Íntima das personagens. Na primeira cena de relação sexual entre as duas, a câmera, ao contrário, começa bem aberta, como afirmando aquilo que já deveria ser natural há séculos: duas pessoas do mesmo sexo podem se relacionar e obter diversos tipos de prazer com isso. A cena toda é muito bem construída e esteticamente bastante forte e bonita, das melhores dos últimos tempos. A cena de uma briga entre as duas não fica muito para trás. Adèle Exarchopoulos chora de um jeito comovente, seu nariz escorre, seu desespero é latente, tudo é poético e verdadeiro em sua atuação. Kechiche fez questão do sexo explícito e fez questão de provar isso ao espectador com closes bastante demonstrativos. Talvez apenas assim as pessoas entendessem. Talvez.

A sensibilidade presente no filme não está apenas na macroestrutura da história narrada. A passagem do tempo é sensível, é leve. Não o percebemos. Estamos num território temático que absurdamente ainda constrange. Dessa forma a condução lenta do tempo é essencial. O que com certeza também justifica a duração de 3 horas do filme.

Apesar de achar que este não é um filme apenas sobre uma temática homossexual, mas sim um filme sobre a vida, as relações, as descobertas, e até nosso momento histórico, outro ponto a se destacar é a história escapar de quase todos clichês presentes em outros histórias de temática semelhante. Ao final, Kechiche quase brinca com isso ao ameaçar uma saída clássica para Adèle. Mas não. Aqui estamos em outro território, estamos falando de outro tipo de cinema.

Uma pena que o título em português novamente revele muito da história. Melhor teria sido a tradução literal do título em francês: “La Vie d ´Adèle”.

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Diogo Brunner

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