Diogo Brunner

distraídos venceremos

Cores (ou a claustrofobia do tédio)

Em "Cores" tudo é lento. A lentidão pressupõe o tédio. As perspectivas estão ausentes. Vemos na tela a nossa angústia refletida diante de um mundo que exclui os que não se enquadram.


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Difícil estar perto dos 30 e não se reconhecer nos personagens de “Cores”. Para os que não nasceram em berço esplêndido ou para aqueles que não entraram na paranoia do “se-dar-bem-na-vida-a-qualquer-custo” mesmo que para isso tenham que vender um grande quinhão de sua liberdade, “Cores” é visceral. É visceral porque não faz rodeios, porque vai direto ao ponto. Mesmo que o ponto não exista de forma específica e sim perpasse cada momento de angústia, de tédio, de solidão, de desespero. Que perpasse os sons que incomodam, que criam ambientes claustrofóbicos. Ambientes que lembram os da cineasta argentina Lucrécia Martel.

Nessa claustrofobia extremamente barulhenta vivem os três personagens criados pelo diretor Francisco Garcia, numa fotografia em preto e branco milimetricamente executada e totalmente integrada num ambiente de abismo, realizada pelo fotógrafo Alziro Barbosa.

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Com todo o ambiente criado, nada acontece. Os passos são de tartaruga (Capitu, a tartaruga de um dos personagens, não está lá por acaso; a presença da avó pressupõe lentidão e decadência). A lentidão entra em contato com a ausência vazia de um norte consistente. O desejo da mudança existe, mas no fundo, não há porque ou como mudar. Não há porque querer certezas tão sólidas. No final, seria tudo a mesma coisa. Existem espasmos de tentativas, em sua maioria desesperadas. O desejo do consumo é latente, mas quase se contenta nos devaneios dos paraísos artificiais. Afinal, se não eles, quem? Os três estão ali de corpo inteiro, malandros ingênuos (como todos nós), buscando saídas que provavelmente não existem. E todo mundo, em algum momento, percebe isso. A falsa busca de uma felicidade exterior.

Enquanto o nada continua acontecendo o que vale mesmo é ver a chuva cair, de forma inexorável. Inertes, como se ao invés de uma tempestade houvesse um grande sol. É quase o momento catártico do filme. Digo quase, pois provavelmente não há catarse nessa situação. Talvez apenas pequenos momentos de iluminação.

O mérito do filme, talvez, encontra-se justamente na não exploração (negativa) da situação dessa juventude. E sim é como se lhe estendesse a mão para que juntos fossem chafurdar nesse tédio abafado, cheio de fumaça e claustrofobia. Cheio de um barulho que faz do silêncio algo ensurdecedor. Onde nada acontece mas onde tudo salta aos olhos. Porque é assustador nos vermos tão refletidos em algo. Porque para além de bater de frente com a situação é necessário antes entendê-la. E isso é processo interno. Por isso que o marasmo de “Cores”, tão bem refletido na sua fotografia e nos seus “barulhos”, é tão bonito e brutal. Ao mesmo tempo.

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Diogo Brunner

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