Diogo Brunner

distraídos venceremos

Nebraska (ou a busca pela permanência)

Em Nebraska somos novamente afastados da história dos vencedores. Para Alexander Payne a verdadeira redenção está em lançar o olhar aos vencidos.


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Um norte na vida. Talvez seja sobre isso o novo filme do diretor Alexander Payne. Em seus filmes sempre nos deparamos com pequenas histórias de grandes significados, como se tudo estivesse nos pequenos detalhes e não nas grandes realizações. Em Sideways (2004) isso é levado ao extremo e, provavelmente, depois dele seja difícil deixar as coisas tão claras novamente. Seja difícil transformar com tanta maestria uma melancolia bela e profunda em ficção.

Nebraska é a busca pela permanência. A permanência explicitada por algum sentido na vida. Diante da figura de um velho (sim, não estamos diante de alguém da “terceira idade” ou algo do tipo) sem mais propósitos somos lançados numa espécie de road movie pelo impossível. O impossível é recuperar o tempo perdido, ou recuperar alguma espécie de respeito ou dignidade. Por isso que Woody Grant (Bruce Dern) sempre foge caminhando, nunca correndo. Uma caminhada com um objetivo específico mas sem a racionalidade exigida por uma sociedade normativa. Ele não pode caminhar para onde deseja. Ele tem filhos e esposa que fazem um papel de super ego ao lançar sombras na sua imaginação.

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Woody pensa que virou um milionário. Woody vive sob uma linda fotografia em preto e branco que avalia suas tentativas de sair de um buraco onde a vida lhe jogou. Ele nunca quis estar lá. Woody é persistente. Sua velhice, algo além da normalidade, é confrontada com o excesso de realidade da sua família. A simples imaginação levará Nebraska a outro patamar. Poderíamos esmagá-lo – o velho e outra tentativa de vida – em um simples asilo, como sua mulher propõe algumas vezes. A louca lucidez de Woody é expressa pelos seus cabelos brancos desgrenhados, pelos seus ouvidos deficientes, ou pela simples teimosia em acreditar numa reles propaganda.

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Woody tem a certeza de um novo sentido na vida. Não importa o quanto seja ridicularizado. Ele acredita piamente. Ele despreza com os olhos vagos de quem não compreende o porquê da chacota. Não importa a concretização. Ele acaba acreditando na fantasia. O seu próprio estado se torna a tal realização ou reconstrução de uma nova vida, de um novo sentido. Mesmo que seja um sentido pautado na figura do outro. Cada tomada é uma foto daquelas de pendurar na parede do quarto. Não é só Woody. São todos ansiando por alguma novidade num lugar que não conhece mais tal palavra. Woody parece não saber mais nada sobre os que estão ao seu redor. E ninguém parece ter acesso à sua lucidez.

Woody já foi pai mas agora virou filho. E a racionalidade novamente perde frente as possiblidades da imaginação. E Woody, se pudesse, ajudaria a todos com sua sorte. Para ele não existe oportunismo e sua pureza invade os limites da maldade.

A mesma maldade que ele rebate apoteoticamente desfilando com sua nova camionete, fazendo da fantasia uma arma contra um mundo que tinha perdido o sentido. Contra um mundo que cambaleia apoiado na ingenuidade, mas que não tem pudores de dela tirar proveito. Novamente Alexander Payne nos dá um filme bastante afastado dos vencedores. O que vemos são pequenos momentos de redenção em meio ao tédio cotidiano. Woody somos todos nós colocando os pés numa calçada fria. Caminhando. Sem saber direito para onde estamos indo.


Diogo Brunner

distraídos venceremos.
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