Diogo Brunner

distraídos venceremos

Um pouco sobre David Foster Wallace

Alguns comentários em torno da coletânea de ensaios "Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo"


Muitos dizem que David Foster Wallace só virou uma espécie de autor “cult” depois de seu suicídio em 2008. É muito provável que isso seja verdade. Eu mesmo só “encontrei” David após o fatídico 2008. Como se a sua trajetória trágica – ou romântica, por outro lado – despertasse a curiosidade para os seus escritos, e não o contrário, ou seja, que seus escritos ajudassem a entender uma trajetória trágica. No fim das contas, ambas opções acabam sendo plausíveis e realizáveis. O fato é que há quase nada traduzido de Foster Wallace no Brasil.

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“Infinite Jest”, talvez sua maior obra, está disponível por enquanto apenas em português de Portugal. Em 2012, preenchendo um pouco esse vazio, saiu pela Companhia das Letras a coletânea de ensaios “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo”. E não dá pra deixar de dizer que o título por si só já é bastante chamativo.

Aliás, esse é o título que nomeia também o primeiro ensaio da coletânea. Ao todo são seis ensaios que flertam abertamente com o jornalismo literário. Na verdade, eu prefiro pensá-los apenas como literatura. Simples e pura. Apesar de serem jornalísticos. Mas Foster Wallace era, acima de tudo, escritor. No prefácio da coletânea Daniel Galera diz que a marca deixada por David para o jornalismo literário é comparável ao do cultuado Hunter S. Thompson, pai do chamado “jornalismo gonzo”, autor de “The rum Diary”, entre outros.

Em cada ensaio perceberemos uma recorrência de estilo, uma acuidade na observação e descrição do que é visto e vivido, grandes doses de ironia e sarcasmo e uma visão bastante ácida sobre o homem e a sociedade norte-americana.

No primeiro ensaio, que dá nome também à coletânea, Foster Wallace parte, a convite de uma revista, para a Feira de Illinois, uma típica feira norte-americana, algo caipira, algo fora do tempo. Todo mundo já deve ter visto alguma delas em filmes de Hollywood. É fácil dizer que sua descrição é minuciosa. Mas não é só isso. Ela não dá apenas os fatos, ela dá também o entorno, tudo que gira em volta do objeto principal. E nessa descrição também podemos ver o próprio escritor, sua posição, seus devaneios pessoais ao ser jogado numa Feira do meio-oeste rural americano. É um ensaio bastante longo, e acho que a grande questão aqui é a seguinte: por que eu gostaria de ler algo com mais de 100 páginas sobre uma feira rural em Illinois? Justamente porque aqui não estamos no campo do mero jornalismo, somos perseguidos e atingidos pela linguagem do autor, novamente, por uma capacidade de observação bastante aguçada. A Feira pouco importa, o que queremos é a forma que Wallace concebe e dá a um evento banal, transfigurando todo o sentido inicial do texto. E assim fazendo, claro, literatura.

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O segundo ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” segue a mesma lógica do anterior. Aqui, também a convite de uma revista, Wallace embarca num cruzeiro de luxo para tentar entender um fenômeno específico: por que as pessoas buscam esse tipo de viagem onde lhe é prometido uma “experiência única” (como se isso fosse tão fácil) e a satisfação ampla, geral e irrestrita dos seus desejos? Na verdade, por que seria necessário um cruzeiro de luxo para que as pessoas se sintam completas, realizadas? Em seus dias a bordo Foster Wallace descreve todos os tipos de situações algo bizarras (os tradicionais e constrangedores turistas/consumidores americanos), algo melancólicas (poderia colocar aqui a mesma descrição), mas uma delas sobressai: observa ele que nos cruzeiros de luxo você é destituído inclusive da necessidade de construir a fantasia, você não precisa pensar em absolutamente NADA quando está a bordo, o que convenhamos é bastante assustador. Mas é o que desejam seus consumidores, fazendo coro na história do “trabalhei duro o ano inteiro, agora não quero pensar em nada”. E apesar do texto prosseguir com a mesma ironia cortante e um sarcasmo divertido, talvez a conclusão esteja numa única frase de Wallace: “Existe algo de insuportavelmente triste num Cruzeiro de Luxo comercial”.

O terceiro ensaio é sobre Kafka. Na verdade uma palestra: “Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante”. Neste texto, o mais breve da coletânea, Wallace discorre sobre o humor e espirituosidade de Kafka, mas novamente de uma perspectiva que faz a crítica da sociedade americana. A tal espirituosidade e o humor de Kafka, de difícil apreensão, estaria inacessível aos jovens norte-americanos, já que “nossa cultura treinou para ver piadas como entretenimento e entretenimento como conforto”. Ou seja, diante de Kafka, e de um humor um pouco mais enrustido na estrutura do texto, o jovem americano (e sabemos, não só ele) fica de mãos atadas, não consegue ir a fundo. Está perdido (e confortável) no conforto citado pelo autor. Nas facilidades do humor televisivo que se constitui esmagadoramente como entretenimento, apenas.

“Pense na lagosta” é o texto seguinte. Remetendo ao primeiro ensaio, aqui Foster Wallace vai até o Maine, para um famoso Festival da Lagosta. Seguindo o mesmo instinto aguçado dos outros textos, na observação do fatos aliados à uma descrição literária, aqui, a meu ver, há um diferencial. Ou algo que destoa no texto. Toda a descrição interna e externa do festival fica em segundo plano quando começamos a discutir os limites éticos de se enfiar uma lagosta viva na água fervendo (pra quem não sabe é assim que se cozinha uma lagosta, você realmente precisa coloca-la viva dentro do panelão de água fervente). Diante dessa questão que se torna central, Wallace faz sua reflexão, novamente, sempre tendo no horizonte um paralelo com questões mais profundas e de um alcance maior. Não estamos apenas discutindo o possível sofrimento da lagosta, mas sim hábitos de toda uma cultura.

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Os dois últimos ensaios talvez difiram levemente dos demais. O primeiro é um discurso de Paraninfo, no Kenyon College, em 2005, intitulado “Isto é água”. Este discurso, ou ensaio, acabou bastante popular na internet. É um texto bastante bonito e muito atual sobre a questão do que realmente devemos levar a sério na vida. Um texto sobre experiência, sobre solidão, sobre liberdade, sobre o mundo contemporâneo. Sobre as formas de lidar com ele. Aqui, de fato, temos um Foster Wallace diferente, que tenta mostrar, pela linguagem, como não cair na “corrida de ratos”. Se o suicídio de Wallace pode ser intrigante, neste texto talvez encontremos algumas respostas.

O último ensaio demonstra de imediato o caráter eclético de Wallace. “Federer como experiência religiosa” é um tratado sobre o possível maior tenista de todos os tempos. A partir da final do torneio de Wimbledon de 2006 entre Roger Federer e Rafael Nadal, a qual Wallace confere in loco, ele não escreve necessariamente sobre o tênis e suas evoluções ao longo das décadas. Escreve sobre a experiência de ver ao vivo a elegância de um atleta quase perfeito. A tal da experiência quase religiosa. É interessante notar que Wallace nada diz sobre o resultado do jogo. É como se isso fosse o menos importante quanto você está vivendo uma “experiência quase religiosa”.

Diante destes ensaios poderíamos nos focar apenas em questões ligadas à técnica narrativa, ironia, sarcasmo, observações sociológicas. Mas penso ser mais interessante atentar para a questão da experiência, que é o que eu imagino ser o elemento que realmente perpassa todos os textos. Como criar experiência? O que é, de fato, experiência? Todas elas são válidas? É olhando pra isso, penso eu, que Wallace constrói sua forma literária, deliciosamente fluente. Seu jornalismo literário, deliciosamente romântico. Um tipo de jornalismo, salvo raras exceções, praticamente extinto em terras brasileiras.


Diogo Brunner

distraídos venceremos.
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