Diogo Brunner

distraídos venceremos

La vida útil - o sensível cinema Uruguaio

Já faz alguns anos que o cinema uruguaio demonstra força. Sua sensibilidade e melancolia se atentam para detalhes do cotidiano, os quais, muitas vezes, já não temos "tempo" para olhar.


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Quanto de sensibilidade cabe em 70 minutos? Essa foi a pergunta que me fiz ao assistir La vida útil (2010), do uruguaio Federico Veiroj. E imediatamente me veio à cabeça, novamente, de onde vem tanta delicadeza do atual cinema uruguaio.

O filme é quase uma ode a um tipo de cinema onde prevalece a noção de experiência. E isso, nem sempre, diz respeito ao conteúdo ou forma do filme, mas sim o que envolve a experiência de assisti-lo. Frente aos assépticos cinemas de shopping centers, temos aqui a cinemateca uruguaia à beira da falência, com seus bancos que rangem denunciando sua história (sim, essa é a diferença, há história), seus projetores que desfocam romanticamente as imagens. Romantismo esse que perdeu seu lugar para poltronas reclináveis e pipocas a preço de ouro.

La Vida Util 2.gif Jorge, o protagonista, dedicou 25 anos de sua vida à cinemateca. Com o seu inevitável fechamento, Jorge necessita buscar um reencantamento para sua vida, e este só pode vir à luz – neste terreno que pisamos – na sua forma mais elementar: o amor. Jorge se apaixona. Jorge discorre filosoficamente sobre a mentira inspirado em Mark Twain. Jorge tem algo de patético, algo meio chapliniano, principalmente na cena em que brinca nas escadas da universidade. Seus trejeitos estão entre essa simbólica patetice, e certa pureza inocente.

O filme tem uma fotografia em preto e branco, levemente granulada, como a remontar aos prelúdios do cinema do começo do século XX. E é inegável – já como um traço marcante desse cinema uruguaio – a presença de um elemento fortemente melancólico, seja num pequeno silêncio, num gesto, numa forma de caminhar.

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Uma singela homenagem à sétima arte. A cena final, com a câmera fincada, estática, numa rua de Montevidéu, lembra o expressionismo alemão.

Impossível não pensar no fechamento dos últimos cinemas de rua em cidades como São Paulo. Impossível não pensar no esmagamento desses pequenos espaços de formação subjetiva que resistem como podem, mas que sucumbem diante de monstruosidades como a especulação imobiliária.

La vida útil. A noção de utilidade. A quem serve esse tipo de utilidade, onde, o que não se ajoelha ao ideal do consumo constante, é descartado como mera fantasia saudosista?


Diogo Brunner

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