Diogo Brunner

distraídos venceremos

Omar: a cada dia que passa é mais um dia de ocupação

"Omar" é o novo filme do diretor palestino Hany Abu-Assad, que já havia feito o grande "Paradise Now". Diante dos atuais conflitos entre Israel e Palestina é como se nem uma boa ficção conseguisse chegar perto da realidade.


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Quando saí do cinema, anos atrás, após uma sessão de “Paradise Now”, do diretor palestino Hany Abu-Assad, eu só conseguia permanecer em silêncio. E não era um silêncio meditativo que poderia estar refletindo sobre as questões abordadas naquele filme. Era um silêncio meio que de incredulidade diante de uma situação que sempre foi trágica.

Acho que tragédia, assim, com o significado mais natural e profundo que temos dela, é a palavra que designa também “Omar”, o novo filme de Hany Abu-Assad. E é tragédia, porque de repente, numa tarde qualquer, estamos assistindo um filme de ficção, que na verdade é realidade. A ficção se materializando em concretude real bem diante de nossos olhos, da pior forma possível. Aqui, talvez, a ficção, defeituosa que pode ser, é sim trágica, mas bem provavelmente não supera a realidade. Estamos na Cisjordânia cortada ao meio por um muro.

Omar mora do lado Palestino e faz parte de um grupo de resistência contra a ocupação Israelense que vigora desde 1967. É terrivelmente – e digo terrivelmente porque é de fato um calvário, também na acepção mais pura dessa palavra – apaixonado por Nadia, irmã de um dos seus companheiros de resistência.

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Aqui vamos ver voltar na narrativa de um filme, de forma diferente, velhos dilemas. Como lidar ao mesmo tempo com o amor e a revolução? Como lidar com a revolução sem perder sua subjetividade? Isso perpassa o inconsciente de Omar mesmo que não esteja explícito. Mesmo que ele próprio pareça não se importar muito. É como se ele tivesse certeza do que deveria fazer e isso bastava. Quaisquer entraves, que responsáveis fossem, que saíssem de sua frente.

Omar, ao decidir que seria “hoje” um ataque a uma base israelense, é questionado do porquê da escolha. Sua resposta é simples, quase pueril. E forte, como uma machadada. “Cada dia que passa é mais um dia de ocupação”.

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A polícia israelense, ao abordar Omar, humilha-o gratuitamente. Até pela construção da cena nesse momento, o sadismo dos policiais, o rosto de incredulidade e revolta de Omar, é impossível não pensar na atuação da PM brasileira nas periferias. Infelizmente o sadismo não é privilégio de poucos ao redor do mundo.

A união do povo Palestino tem um quê de romântica e emocionante. Não parece uma união que poderia ser apenas afetiva, ela é uma união em guerra, uma união contra um inimigo comum. A união contra a ocupação. As crianças jogam pedras no carro da polícia para defender Omar. As pessoas abrem a porta de suas casas para esconder os que fogem dos agentes de Israel.

Há também um tempo – cronológico – que é diferente. O filme é algo atemporal. Não conseguimos estabelecer um período de tempo entre um fato e outro. Os machucados brotam no rosto de Omar para logo depois desaparecerem. É como se isso representasse essa “ocupação contínua”, onde, de fato, o tempo se estagnou, ou não é o mesmo tempo que nós conhecemos.

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Ao final, é tudo simples. Na luta palestina e para os Palestinos não há mais como fazer concessões. Já não temos uma guerra, temos um genocídio.

Dentro disso é até um pequeno sopro de esperança pensar que o filme foi todo financiado com dinheiro privado palestino, com atores palestinos, e que tenha conseguido autorização para filmar dos dois lados do muro. Um cinema, também ele, que resiste, que é político. Se afirma enquanto representação daquele povo. Se mostra naqueles que arremessam pedras nos policiais.

Os créditos sobem num respeitoso e absoluto silêncio, como que prestando sua solidariedade, propondo um momento de reflexão, homenageando todos que perderam a vida. Mesmo que lá no fundo só reste incredulidade e uma revolta impotente. O mesmo silêncio que senti anos atrás ao sair daquele cinema. E agora a sensação também é trágica: a de que nada mudou. A ocupação e o genocídio são sistemáticos e contínuos.


Diogo Brunner

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