Diogo Brunner

distraídos venceremos

“La Jalousie”: nossa primeira condição é a solidão

Em "La Jalousie", Phillipe Garrel fala de amor e solidão, sempre se utilizando de uma belíssima estética que nos remete aos anos 60.


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“La Jalousie” (o ciúme, em português) é o filme mais recente do diretor francês Phillipe Garrel. Temos aqui uma estrutura bastante semelhante aos seus filmes anteriores. Tal semelhança não retira os méritos do diretor, como se ele estivesse, a cada filme, se copiando. Ao contrário, a repetição de algumas temáticas e de uma estética bastante marcada só o torna mais certeiro.

Assim como em “A Fronteira da Alvorada” ou no mais complexo “Amantes Constantes” a fotografia é, sem dúvida, um dos pontos mais altos. Sempre lembrando uma Paris dos anos 60, o preto e branco usado por Garrel é de uma beleza ímpar. Em “La Jalousie” a junção dessa fotografia com uma trilha sonora algo impactante parece já criar uma ambientação que nos conduz pelos meandros da criação das cenas. É como se a história estivesse submetida ao ambiente, mas sem prejuízo de nenhuma das partes. Pelo contrário, é como se complementassem, criando uma bela unicidade. Louis, vivido por Louis Garrel, filho do diretor e que atua em quase todos os seus filmes, é um ator de teatro que está se separando. Louis tem uma filha. “La Jalousie” gira basicamente em torno desta situação inicial. Aqui o amor é de novo figura central.

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Temos no filme algo como pequenas cenas do cotidiano, um café da manhã, um passeio no parque. A figura da filha, a figura do novo amor. Pequenas cenas que parecem não querer dizer nada, parecem fugir do que seria o desenrolar principal da narrativa, mas que na verdade constituem a sua real poesia. Aquela contida nas pequenezas da existência. Aqui o amor é desesperador, ama-se demais. Mas ao mesmo tempo ele parece fugaz, efêmero, como se num piscar de olhos o amor pudesse mudar de direção, se inverter, se diluir. A relação de Louis com a filha acaba sendo um contraponto em relação a isso. Para a filha ele acaba demonstrando um outro tipo de amor, aquele incondicional.

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Em outros momentos vemos brotar ali, também, uma questão clássica. Um conflito de juventude que não poupa quase ninguém. Vemos discussões entre fazer o que se gosta ou apenas ganhar dinheiro. Discussão essa que poderia cair em um lugar comum se ela não tivesse um ponto claro em seu relacionamento para com o resto da história. Esse ponto claro é justamente o embate entre consumir e existir. Entre uma vida qualitativa e outra quantitativa. Uma questão onde quase não cabem os julgamentos racionais.

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“La Jalousie” mostra que, na verdade, a nossa condição no mundo é uma condição solitária. Nossa condição é cheia de conflitos, embates, mas sobretudo cheia de silêncios que incomodam. É necessário lidar com esse vazio. Cultivá-lo para poder entendê-lo. E essa é também uma atividade solitária. Não adianta querer trata-la preenchendo a vida com o amor por uma segunda pessoa. Mesmo que se goste excessivamente. É necessário que a gente se resolva antes com nós mesmos para poder, depois, olhar o outro com uma sinceridade real.


Diogo Brunner

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