Diogo Brunner

distraídos venceremos

Nocilla Experience, de Agustín Fernández Mallo

Em Nocilla Experience, Agustín Fernández Mallo quebra a linearidade da narrativa, inventa personagens existencialmente complexos e dá um sorriso para Cortázar e Bolaño.


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Agustín Fernández Mallo, 47 anos, é um escritor espanhol que já foi considerado o sucessor de Roberto Bolaño. Só por isso, talvez, ele já devesse ser lido. Mesmo que essas comparações nunca sejam interessantes, ninguém é comparado a Bolaño impunemente. Mallo também é músico, e talvez seja por isso que Cortázar também aparecerá por aqui em algum momento.

Com a trilogia Nocilla, Mallo deu fôlego à literatura contemporânea espanhola, “formando”, inclusive, uma nova geração de autores, conhecida como “geração Nocilla”. Essa trilogia – formada por “Nocilla dream”, “Nocilla experience” e “Nocilla lab” – não tem uma linearidade, podendo ser lida na ordem desejada.

Aqui para esses lados me caiu em mãos o volume “Nocilla experience”. A negação de uma linearidade clássica parece corrente. A narrativa, extremamente fragmentada, realmente nos faz lembrar da comparação com Bolaño. Assim como a multiplicidade de personagens: percorremos com eles várias partes do mundo, simultaneamente. São esquisitos, meio loucos, cientistas, pessoas normais. Os capítulos, sempre curtos, investem contra nossa preguiça de leitor. Precisamos dar conta desse tempo narrativo louco.

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Outro ponto nessa “experiência Nocilla” é lidar, ou colocar sentido, na intercomunicação com outras obras. Citaçães literais de “Apocalipse Now” aparecem regularmente em meio aos capítulos, assim como trechos de entrevistas com músicos. Thom York é um deles. Podemos ver aqui uma espécie de internacionalismo na literatura. Mallo não se furta em ter essas referências externas, mas dentro da narrativa também notamos isso. Certa globalização, a cultura pop. Uma moça nos cafundós da Rússia que ouve Lou Reed.

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Há nas entrelinhas um jogo. Mallo se torna uma espécie de croupier lúdico. Demonstra isso ao introduzir na narrativa a figura de Cortázar e o seu “ Jogo da Amarelinha”. Autor e obra, que estão pelo livro todo, são fundamentais para o bom funcionamento do jogo construído pelo espanhol. A estrutura de “Nocilla” é como um afago em Cortázar. Fundir ficção e realidade também faz parte das regras, ou da falta delas. Mistérios reais como “ a face de Bélmez” (da um google aí), aparecem no meio da fragmentação narrativa. Mallo também lança um olhar aos surrealistas ao criar um personagem disposto a “cozinhar o horizonte”. Uma bela passagem. Filosofia, ciência e um obituário também permeiam os capítulos.

No epílogo Mallo reafirma suas convicções ao criar, ao que me parece, uma nova narrativa. Mas que não deixa de flertar com a anterior, seja no estilo, na temática, ou na riqueza existencial dos personagens.

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Talvez seja isso o que mais salta aos olhos. Mallo consegue criar uma loucura poética. Algo que nos pega, mas não sabemos exatamente por onde. E assim como em Bolaño, é impossível terminar o livro e ir fazer qualquer outra tarefa cotidiana simples. Ele vai ficar um tempo ali com você, na sua orelha, te assombrando onde você menos esperar. “Nocilla experience”, com o perdão da repetição, é uma experiência bastante interessante no panorama da literatura contemporânea.

Para ilustrar, faço aqui um epílogo próprio. Ao final do livro, temos uma parte dedicada para notas de esclarecimento e créditos. Transcrevo uma parte bastante interessante e que, de certa forma, traduz muito do livro. Diz Mallo:

“Em julho de 2007, um amigo e leitor de confiança, David Torres, me fez a seguinte observação por e-mail, que copio e colo aqui:

Oi Agustín. Voltei de Cuba e comecei a ler esta mesma tarde o seu Nocilla. Há uma coisa grave, que não sei se você fez de propósito: o personagem que pendura fórmulas com pregadores de roupa. No romance de Bolaño, 2666, na segunda parte, um cara pendura livros de matemática no varal, para arejar as ideias. Seu personagem emprega termos quase idênticos. Imagino que você não leu o livro, mas é uma dessas coincidências que fodem ou, como diria Borges, que formam uma ordem secreta. Um abraço, David.

(...)

De fato, para minha surpresa, eu não tinha lido esse livro, coisa que esclareço para constatar que no final todos voltamos, queiramos ou não, às tramas ocultas de uma literatura que nos supera”.


Diogo Brunner

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