Diogo Brunner

distraídos venceremos

Reinaldo Moraes e o Cheirinho do Amor

Reinaldo Moraes não volta com o novo romance tão aguardado, mas esse volume de crônicas serve como um bom tira gosto para o que pode estar por vir.


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Difícil tentar escrever sobre o primeiro livro do Reinaldo Moraes pós “Pornopopéia”. O ofício do escritor é realmente uma coisa ingrata. O cara vai lá e escreve um puta livro. Depois disso ninguém mais vai querer algo mediano ou apenas bom. Mas na verdade, também não cabem muitas comparações aqui, afinal estamos falando de um outro formato: a crônica.

A crônica costuma captar pequenos fatos do cotidiano. Ainda assim uma crônica pode ficar imortalizada na história por algum motivo qualquer. Ou já estar embrulhando peixe no dia seguinte. Ou seja, seria injusto analisar crônicas da mesma forma que se analisa um romance. São duas formas diferentes, dois campos com peculiaridades que ora podem se aproximar ora se afastar, mas ainda assim merecem análises singulares.

A temática do sexo nas crônicas de Reinaldo faz com que os dois formatos – crônica e romance – se aproximem por um instante. E dentro dessa temática em comum veremos outras coisas se repetirem. Mas vamos lá, estamos falando de “O Cheirinho do Amor – Crônicas Safadas”, lançado recentemente pela Alfaguara. Trata-se de uma reunião de crônicas publicadas na Revista Status. A Status começou a ser publicada nos anos 70, passou por uma interrupção e voltou há alguns anos atrás.

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Acompanhando a obra de Reinaldo existem ali referências que vão perpassar todos seus livros, e não seria diferente aqui. Baudelaire, Serafim Ponte Grande, Cortázar e Philip Roth são apenas algumas figuras que estão ali fazendo companhia ao narrador. Convenhamos, não são quaisquer referências, o que torna totalmente aceitável a repetição. Pelo menos na humilde opinião deste que vos escreve.

Nessa coletânea – confesso aqui alguma frustração quando ouvi que o livro novo do Reinaldo não era o tão aguardado novo romance – o autor flutua por diversos temas. Parte de coisas que está lendo ou que assistiu, mas num piscar de olhos ele volta para o que eu chamo dos “delírios reinaldianos”. E aqui, entre ficção e realidade, temos de tudo: sexo tântrico misturado com tartarugas, tatuagens anais, transexualidade, teorias para a origem do mundo, criações estapafúrdias, etc.

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Poderíamos facilmente dizer que temos aqui mais do mesmo. Mas neste caso, pra quem é fã não só do autor, mas do (assunto) sexo, esse “mesmo” acaba sendo “mais”. Aliás os trocadilhos, marca registrada dos narradores de Reinaldo, assim como a ironia, continuam bastante afiados neste volume. Além disso, Reinaldo continua com uma característica cada vez mais rara hoje em dia. Ele não apenas fala despudoramente de sexo, ele o faz com uma linguagem que não é comparável (no sentido de semelhança) com nada que se produza na literatura brasileira contemporânea.

A trajetória do Reinaldo sempre foi irregular, levada no seu próprio tempo, com espaços grandes entre publicações, sem aquela noção de produtividade. Não seria diferente agora. Mas espero que esta coletânea seja apenas um saboroso tira gosto para o próximo romance. Esperaremos no bar. Local mais adequado pra essa tarefa.


Diogo Brunner

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