Diogo Brunner

distraídos venceremos

E o velho safado descobre John Fante

A história do belo encontro entre Bukowski e John Fante.


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Quando jovem Bukowski era um vagabundo que fugia do trabalho e passava os dias na biblioteca pública de L.A. Durante as noites bebia e escrevia. Durante o dia passava fome. Em suas imersões pelas estantes da biblioteca de Los Angeles, Bukowski reclamava do que encontrava: escritores estéreis retratando a vida da alta classe média. Algo que durava muito pouco no seu inconsciente.

Numa tarde qualquer revirando os volumes, Bukowski finalmente encontra pelo que tanto esperava. Alguém que mostrasse “a risada vencedora da dor”, da tristeza, da loucura. Era John Fante. O cara que havia escrito “Pergunte ao Pó” era um total desconhecido até ali. Foi uma influência definitiva na escrita do Velho. Fante escrevia sobre um escritor que passava fome. Um grande choque para alguém entediado com uma literatura muito bem acabadinha.

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Muitos anos depois, Bukowski – agora já descoberto pela Black Sparrow do editor John Martin e vivendo como um escritor profissional numa casa tranquila em San Pedro – consegue, quase sem querer, “ajudar o mestre”. John Martin lê em uma matéria de jornal qualquer que a maior referência do velho Buk era “um tal de John Fante”. Resolve republicá-lo e encomenda o prefácio ao Velho. Era uma espécie de redenção. Enfim, as pessoas poderiam conhecer aquele sobre o qual Bukowski dissera palavras duramente derradeiras: “Eis aqui, finalmente, um homem que não tem medo das emoções”.

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Bukowski acabaria se tornando amigo de seu grande mestre e ídolo. Fante sofria de diabetes e foi - nas palavras dele – “podado todo pelos médicos”. As pernas principalmente. Também estava cego, e seu último livro foi ditado à sua esposa. Tiveram encontros memoráveis e diálogos deliciosos, como quando Bukowski pergunta à Fante se de fato Camila (personagem de “Pergunte ao Pó”) havia desaparecido no deserto. Segue abaixo o trecho.

- Mas escute, andei pensando sobre uma coisa...

- O quê? – pergunta Fante.

- O que aconteceu com aquela maravilhosa Camila em Pergunte ao Pó? Ela realmente desapareceu no deserto?

- Não. Ela voltou. Depois acabou se revelando uma desgraçada duma lésbica. – ele riu.

- Puta que pariu!

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Curiosidades, comicidades e certa linguagem chula à parte, Bukowski trata toda a narrativa com uma melancolia inerente aos fatos. Esta história está publicada no livro de contos de Bukowski chamado “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. E é, também, extremamente recomendada a leitura do prefácio de 1979 escrito para a reedição de “Pergunte ao Pó”, que aqui está publicado, assim como os outros livros de Fante, pela Editora José Olympo. Leiam Fante.


Diogo Brunner

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