Diogo Brunner

distraídos venceremos

FLIP - Um diário #1

Um diário (talvez nem tão diário) meio bêbado e sem padrão sobre a Festa Literária Internacional de Paraty.


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O primeiro dia da Flip é, basicamente, uma falácia. Tirando a mesa de abertura, às 19 horas, nada acontece, nem nas programações paralelas. Mas na verdade já acontece um monte de outras coisas, você já pode sentir e perceber muito sobre a já tradicional Festa Literária.

Ao meio dia saí de casa pra realmente tentar ver se a cidade já estava diferente. Estava. Na verdade na semana que antecede a Flip algumas mudanças já são notadas. Entre elas o fechamento de espaços públicos para o morador comum (?!). Fui pelo calçadão da beira rio até a tenda principal. Do outro lado da ponte (fechada para o trânsito de automóveis, o que gerou protestos dos mesmos “cidadãos comuns” que passam por ali, muitas vezes a trabalho) uma manifestação dos servidores públicos municipais dava o tom que nem todos querem ver. O estado de exceção no qual a cidade se torna durante o evento não agrada a todos.

A ostensiva presença do policiamento também causava revolta. Paraty é hoje a terceira cidade mais perigosa do estado do Rio de Janeiro. As histórias de crimes, tiroteios e tráficos de droga, obviamente nas periferias, longe do centro histórico, proliferam em todos os lugares. Menos na grande mídia. Paraty é uma cidade blindada para não amedrontar o turista, que é o grande financiador dessas charmosas ruas.

Caminhei até a tenda principal e no meio do caminho chutei 60 reais. Olhei para os lados, esperei, esperei mais um pouco, tive certa culpa, mas no fim imaginei dois turistas europeus cheio dos euro perdendo aquele dinheiro. Embolsei. Fiquei bem feliz e cogitei comprar ingresso pra alguma das mesas que ainda restavam, pensei melhor, acabei indo tomar ceveja na Praia do Pontal. Sério, 50 mangos pra ver alguns escritores que eu passei a vida vendo falarem de graça no sesc, na universidade, em livrarias. Enfim.

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Antes de cerveja (caída do céu no chão da beira rio) fui dar um rolê pelo centro histórico para tentar sentir o tal “clima da Flip”. Numa primeira caminhada, a cidade (centro histórico) realmente estava diferente. Há reportagens de grandes canais acontecendo, os músicos de rua proliferam, os indígenas saqueados de suas terras mostram seu artesanato, os restaurantes (mesmo os que estão sempre vazios no resto do ano) estão cheios.

Continuei caminhando e me deparei com um sósia do Emir Kusturica. Quando eu ainda tava pensando nisso dei de cara com o grande poeta Chacal saindo da “Casa Folha” – o Chacal verdadeiro, nada de sósia. Só conseguia pensar o quão era massa sair de casa e encontrar o Chacal. Não falei com ele, sou tímido e pouco simpatizante de tietagem. Mas esse encontro, que na verdade só aconteceu pra mim, e sendo assim nem sei se posso chamar de encontro, me fez gostar momentaneamente da “Festa”.

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Finalmente segui pro Pontal pra tomar uma cerveja no quiosque do Marcelão. Voltamos à realidade normal. Pontal vazio, vento frio. Clima normal, nada de Flip, tirando um ou outro gringo com cara de escriba. “Paraty é ilusão”, o Marcelão soltou no meio do papo, versando sobre a vida de quem realmente vive a cidade no cotidiano.

É importante lembrar sempre que você está numa “festa”, e não em uma “feira”, de literatura. Ou seja, não entre nos estandes para comprar livro. Não se compra livro em festa, é caro.

O Itaú - dos Moreira Salles - sempre presente, seja com as bicicletas para locação ou com o tal IMS (Instituto Moreira Salles, que também monta uma casa durante o evento). Instituto burguês, ultra burguês, travestido de cool.

Antes da mesa de abertura ainda dei uma caminhada por outras partes da cidade pra ver se algo mudava também longe do epicentro. Muito pouco, pra não dizer nada. A Flip, como vários outros eventos de Paraty, é uma parada basicamente do centro histórico, onde se paga tudo a preço de ouro.

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Tomei um banho e a história do Saviano não vir por falta de segurança me causou uma pane cerebral. Saí procurando a máfia italiana em cada esquina. Cacete, cada passo em falso, um terno e uma gravata, já ia eu imaginando o poderoso chefão se desenrolando na joão claudino, nossa humilde rua.

A mesa inaugural já mostrava uma puta fila. Furada. Fui pra área do telão, de boa, mas o atraso já mostrava seu sorriso brasileiro. Me perdi em conversas paralelas bastante animadas. Aí teve a discussão da literatura erótica do Mário, sua sexualidade (libera a estética, caralho!).

Porra, que sono.

Aiii que preguiça!


Diogo Brunner

distraídos venceremos.
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