Diogo Brunner

distraídos venceremos

Flip - Um diário #3 #4 #5

Um diário (talvez nem tão diário) meio bêbado e sem padrão sobre a Festa Literária Internacional de Paraty.


DSC_0113.JPG

Na sexta-feira já imaginei que seria impossível manter um diário realmente diário sobre a Flip. Era muita coisa acontecendo que se tornava bastante difícil – por uma questão de tempo, sobretudo – elaborar dia-a-dia tudo que acontecia. Mas segue um relato resumido e pessoal dos três últimos dias de festa literária.

O terceiro dia amanheceu bastante cinzento, um clima bucólico que poderia ser evocado em qualquer ficção noir ambientada em Paraty. Ou mesmo em qualquer ficção de tom existencialista. Logo pela manhã, na oficina do Pellanda (aliás que cara generoso e gente boa que é o Pellanda, vai estar na minha fila de leituras assim que eu conseguir algum exemplar) tivemos uma breve discussão sobre escrever a partir do nada. Como é criar algo a partir de um objeto banal, que, a princípio, não tem nenhum significado. Um exercício de ressignificação das coisas. Instigante. Ainda discutimos a questão dos três grandes escritores brasileiros do século XIX serem negros – Machado, Lima Barreto e João do Rio. E no final desse texto talvez fique claro a relevância dessa constatação.

IMG-20150706-WA0003.jpg

Saí da oficina e a cidade já estava bem mais lotada que no dia anterior, passei pela Tenda dos Autores mas segui pra praia do Pontal. Às vezes, aqui em Paraty, eu realmente prefiro o Pontal à qualquer outro lugar. Ali eu me acalmo, penso, respiro. É um refúgio.

IMG-20150706-WA0004.jpg

Voltei no sentido do centro histórico e passando pela Casa Folha assisti um debate sobre a história da maconha no Brasil. As informações mais sistematizadas sobre a maconha, no Brasil, só começaram a pulular no século XX, mas foram sempre informações com a intenção de reafirmar preconceitos, o que talvez dificulte tanto a discussão da descriminalização. O Brasil é um dos poucos países que ainda levam tão a sério a maconha. Para acabar com essa guerra às drogas que vitima sobretudo a população pobre e negra é necessário “descontruir os fatos ligados à moral e trazer mais informação”, segundo o autor do livro que deu nome à mesa, Jean Marcel França. Ele ainda questionou a “medicalização da vida” e colocou que “a vida não é um paradigma médico”, ao responder sobre os relatórios da Associação Brasileira de Psiquiatria, e finalizou: “precisamos pensar, como em outros países, na redução de danos”. É necessários legalizar todas as drogas o quanto antes.

DSC_0114.JPG

Saindo da Casa Folha a cidade parecia ainda mais cheia e continuou enchendo sem parar. Sentei na escada da praça da Matriz e fiquei um tempão observando as pessoas. Paraty parece, o tempo todo, cenário de um grande filme. E eu não canso de olhar.

À noite, como se fizesse uma preparação para a mesa que viria sobre literatura erótica e pornográfica, caminhei pela Rua do Fogo, deserta. Dizem que a Rua do Fogo, com esse nome sugestivo, era a rua da prostituição em Paraty nos tempos passados.

DSC_0116.JPG

Na mesa intitulada “Os Imoraes”, Reinaldo Moraes e Eliane Robert Moraes, discutiram a literatura erótica no Brasil. Eu não vejo o Reinaldo fazendo literatura erótica nem pornográfica, isso parece reduzir um pouco a questão. Se tivesse que rotular preferiria chamar de uma literatura safada. Mas a mesa foi com certeza umas das mais engraçadas da Flip. Reinaldo apresentou um texto inédito em que psicografou Machado de Assis, narrando uma cena tórrida de sexo entre Brás Cubas e Virgília. Um trechinho abaixo:

"Chamei Virgília na chincha, como os pósteros mais acanalhados hão de dizer do século vinte em diante, algo que me é dado naturalmente saber, agora que desfruto da mais folgada e onisciente eternidade. Foi um amplexo de braços e pernas de sucuri famélica. Aproveitei para tacar-lhe a mão em sua fornida retarguarda, encontrando, em lugar das ansiadas nadegotas, nada além da armação e do estofado da famigerada anquinha que ela usava à ré por baixo do vestido, a empinar-lhe a silhueta feito pata choca, como se usava muito naquele tempo (...)”.

IMG-20150706-WA0005.jpg

E o dia acabou em risadas e me fez ansiar ainda mais por um novo romance do Reinaldão.

Tudo recomeçou no sábado, agora quente e úmido.

Foi um dia curto literariamente falando. Dedicado a beber cerveja no Pontal e fazer algo que tava pra ser feito havia muito tempo. Finalmente entreguei minha dissertação de mestrado sobre Pornopopéia pro Reinaldo. Tímido que sou cutuquei ele no meio da rua, quando chegava ao Sesc, e disse algo assim: “Reinaldo. Mestrado. Eu fiz. Pornopopéia”. Ele não demonstrou toda felicidade do mundo, mas acho que vai dar uma folheada ao menos.

DSC_0119.JPG

O dia terminou em cerveja e cachaça paratiense.

No quinto e último dia – um domingo gelado – eu já tava bem podre de cansado. Dava uma meia sensação de “ufa, acaba hoje”. Mas foi um belo dia de encerramento. Começou com o cubano Leonardo Padura discutindo a literatura policial e defendendo que, sim, “o romance policial pode ser grande literatura”. E ele comprova isso.

A chuva fina tinha um tom de fim de festa.

DSC_0125~2.jpg

Na sequência vinha a conferência de encerramento com o Wisnik. A única que eu vi, durango que sou, do lado de dentro da tenda. E valeu muita a pena. Discutiu-se as dualidades em Mário de Andrade, sua biografia como sendo a própria biografia do Brasil, e ainda como Mário não teria escrito Macunaíma, mas sim o Macunaíma que teria baixado no Mário e escrito sua própria história. Mas toda a conferência foi construída com muita inteligência para se chegar numa questão contemporânea latente. Wisnik concluiu sua fala (e foi o único a ser aplaudido de pé durante toda a Flip) mais ou menos (a memória falha) dessa forma: “É difícil para os que estão lá em cima juntarem esse pontos, mas precisamos de educação e cultura como um ‘luxo’ para todos, ao invés de jogarmos a juventude negra na prisão”. Um claro recado aos defensores da redução da maioridade penal.

E assim foi acabando a décima terceira edição da Flip. As ruas ainda continuaram lotadas, mas a sensação já era de despedida.

Foi intenso.


Diogo Brunner

distraídos venceremos.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/artes e ideias// @destaque, @obvious //Diogo Brunner