Diogo Brunner

distraídos venceremos

A devastação das convicções de um homem comum

Sobre a “Pastoral Americana” de Philip Roth.


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Ler Philip Roth pode ser uma experiência devastadora. Ler “Pastoral Americana” pode ser muito perigoso para alguns desavisados mundo afora. Formal e esteticamente você se sente pequeno, sem vontade de escrever absolutamente mais nada na vida. Dá pra escrever melhor do que isso? Então não escreva, algo assim, simples assim. Também me questionei bastante sobre o que eu fiz desde 1997 – ano em que o livro foi lançado – que ainda não tinha me atentado para esse tratado sobre a devastação das convicções de um homem comum.

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Roth narra (mas não é tão simples assim) a vida de Seymour Levov, um judeu de Newark, umas das principais cidades no entorno de Nova Iorque. O pai de Seymour tem a famigerada história do judeu miserável vivendo na América que, através de muito trabalho ascético e uma moral bastante própria, prospera na vida. No caso do pai de Seymour isso aconteceu fabricando luvas de couro para mulheres. Seymour se criou – e acabou totalmente moldado – dentro desse ambiente de abnegação, apesar de ter enfrentado o pai (pela única vez na vida) e se casado com uma mulher católica. Abnegação talvez seja uma boa palavra para definir o Sueco, como Seymour era conhecido na faculdade pela cor dos cabelos e o porte atlético. Roth trabalha indiretamente com a nostalgia melancólica do povo judeu, mas aqui ela se expressa num homem que parece não pertencer à época nenhuma, muito menos à sua. Enquanto seu pai está preso no passado, o Sueco vive um limbo que é expresso na sua relação com as outras pessoas. Que é expresso na sua indignação de que nem todos seres humanos sejam bons e puros como ele. Uma total incapacidade em acreditar que as pessoas podem ser más, violentas, cruéis: foi o calvário de Seymour Levov. Não enlouquecer nunca, não surtar para o lado de fora, não ser violento, não gritar desesperadamente, tudo isso foi o calvário do Sueco. Ser singelamente ingênuo, viver como se estivesse num grande rebanho do bem, numa grande pastoral abençoada chamada América: foi o calvário do Sueco. Para Seymour parece não se tratar de uma crença no ser humano mas sim de uma crença nas próprias convicções. A crença numa série de ideias pré-concebidas por outros e impostas a ele, equivocadamente, desde o início. Esse conjunto de verdades engessadas tornou a vida de Seymour uma grandiosa e trágica falácia. Um homem esmagado sem direito ao grito.

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A narrativa de Roth é densa. Ele cede, a partir de certo ponto, ao seu alter ego Nathan Zuckerman, o controle total dos fatos. Assim como o próprio Nathan, que em determinados momentos, também cede o controle da voz narrativa à terceiros. Dessa forma podemos ter uma visão bastante incisiva – mas também algo controlada – sobre cada cômodo da casa, sobre cada conversa, sobre cada personagem. Mas o que impressiona a todo instante é o domínio de Roth acerca de cada letra, cada palavra, cada passagem. Tudo parece milimetricamente estudado e pensado, mesmo que também seja possível enxergar momentos de alta “improvisação” criativa, aquela parte mais intuitiva, talvez, como na música.

O mundo é um lugar de tensão. E ler Philip Roth é assombroso.

Abaixo uma bela passagem que narra um encontro dos judeus Levov com os católicos Dwyer (família da esposa de Seymour).

“Assim, somando tudo, não era nem de longe tão ruim quanto todo mundo tava esperando que fosse. De mais a mais, era só uma vez por ano que eles se reuniam, e isso ocorria no terreno neutro, isento de cunho religioso, do Dia de Ação de Graças, quando todo mundo come a mesma coisa, ninguém inventa de sair por aí comendo coisas gozadas – nada de kugel, nada de peixe gefilte, nada de ervas amargas, só um colossal peru assado, para duzentos e cinquenta milhões de pessoas –, um peru colossal que alimenta todo mundo. Uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória da nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos, quando todo mundo em Nova Jersey e em toda parte pode se mostrar mais passivo no tocante às próprias irracionalidades do que no resto do ano. Uma moratória para todas as mágoas e ressentimentos, e não apenas dos Dwyer e dos Levov, mas para todo mundo na América que desconfie de todos os outros. É a pastoral americana por excelência, e dura vinte quatro horas”.


Diogo Brunner

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