Diogo Brunner

distraídos venceremos

Quem realmente somos

O brasileiro Mestre Roxinho põe em xeque sua visão tradicionalista da África quando se muda para a Austrália, em 2006, e começa a ensinar capoeira angola a um grupo de jovens refugiados africanos numa escola pública em Sydney.


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Talvez o título do documentário de Paulo Alberton já seja seu primeiro grande achado. Uma afirmação ou uma pergunta? Não importa muito, mas ali está contido quase tudo que precisaremos entender acerca dessas imagens. Roxinho é um mestre de Capoeira Angola – um estilo de capoeira mais próximo das tradições e raízes africanas – nascido na Bahia. Imigrou para Austrália para ensinar capoeira para jovens negros africanos, refugiados de seus países devido às condições políticas, sociais e econômicas.

A figura de Roxinho, o personagem central na qual a câmera de Paulo se apoiará para contar essa história, é a encarnação do afro-brasileiro compromissado com suas raízes. Sua relação é de um compromisso extremado, na melhor tradição da luta dos oprimidos. Ele não está lá apenas para ensinar capoeira, ele está ali para criar consciência política em jovens que já estão inseridos num processo de assimilação de outras culturas, processo no qual a própria cultura africana começa a ser deixada de lado em prol de uma guinada no olhar e no comportamento. Guinada essa que visa principalmente a cultura norte-americana, na figura do rap. Esse primeiro – e bastante problemático – embate dará a tônica da relação historicamente contraditória e complicada entre mestres e alunos.

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Em determinado momento, vendo a imagem de um Roxinho que sofre ao sentir o desrespeito do seu aluno é impossível não pensar nas relações de educação no Brasil de hoje. E aqui cabe um parênteses. O sofrimento de Roxinho – e de tantos educadores – é não compreender como o oprimido acaba, em determinados momentos, querendo se transformar no opressor, antes mesmo de se libertar daquela condição. Uma relação profunda que só se transforma no processo de luta, de embate, de esclarecimento e comprometimento.

É extremamente necessário salientar a figura do diretor. Paulo é uma espécie de mediador externo, um observador, mas um observador que não se exime de suas responsabilidades ao estar apontando a câmera para uma situação de conflito. É de se destacar a sensibilidade estética nos seus momentos de aproximação e intervenção, quando, por exemplo, resolve mostrar aos alunos o que havia sido filmado até aquele momento – com o intuito de trazê-los para perto (o que é também de grande sensibilidade educativa). Os erros e acertos de ambas as partes. Nesses momentos Roxinho e Paulo representam uma espécie de síntese (realmente pensando num movimento de embate dialético) de um processo de dedicação extrema e de um amor comprometido, fatores que somados à própria luta política, implícita na questão, alteram realidades que poderiam se perder, para sempre, por outros caminhos tortos.

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No desenrolar das imagens, podemos pensar, de forma positiva, numa espécie de “vitória parcial”, já que como é sabido a história nunca cessa seu movimento e almejar uma vitória absoluta, nesse contexto, seria cair numa falsa solução ou numa falsa perspectiva. Melhor é entender que a história é cíclica.

Ao final, e como num processo de metalinguagem, temos a própria história de Paulo se confundindo, no mesmo sentido de movimento vital, com o seu objeto. É como se nesse momento de “fim de ciclo” fosse impossível para qualquer um dos envolvidos não repensar suas próprias trajetórias. Não sem certa dose de melancolia (melancolia que não é conformista, mas sim aquela que dá ensejo à transformação) repensar a própria história dentro desse emaranhado de (des)caminhos. Quem nós realmente somos não é apenas uma afirmação (ou pergunta) retórica, é um questionamento profundamente filosófico. Uma sentença da qual todos nós um dia vamos ter que dar conta. E a maneira da qual sairemos disso se dá na forma de como ganharemos a consciência dos olhos atentos. Consciência essa para termos a clareza necessária sobre em quais mestres (e aqui não pensando em pessoas, mas sim em ideias e atitudes) vamos depositar nossas esperanças mais intrincadas.

Roxinho, Paulo, toda equipe envolvida com aquelas crianças não queriam apenas apontar caminhos seguros, queriam mostrar a possibilidade de também caminhar de forma independente, para que também pudessem, eles próprios, descobrirem quem realmente eram, e qual seriam os caminhos para o verdadeiro reencantamento da vida.

Trailer do documentário 'Quem Realmente Somos' de Paulo Alberton from Paulo Alberton on Vimeo.

Próximas datas de exibição do filme:

  • 27 de outubro (terça) 19h30
  • Praça do por do sol
  • Av Walkir Wergani, 1000
  • Boiçucanga – São Sebastião

  • 28 de outubro (quarta) 17h30
  • Escola Municipal de Boracéia
  • Al. Mauã, s/n
  • Boracéia – São Sebastião

  • 29 de outubro (quinta) 19h30
  • Videoteca Municipal
  • Rua da Praia, s/n
  • Centro – São Sebastião

  • 18 de novembro (quarta) 20h
  • Espaço Cachuera!
  • R. Monte Alegre, 1094 Perdizes
  • São Paulo – SP

  • 16 a 19 de novembro
  • 6º Festival Internacional do filme Etnográfico do Recife Mostra competitiva no Cinema da Fundação (Derby)
  • Rua Henrique Dias, 609 – Derby
  • Recife – PE

  • Data a ser confirmada
  • Espaço Cultural Pés no Chão
  • R. Macapá, 72 Barra Velha
  • Ilhabela – SP

  • Data a ser confirmada
  • 1º Simpósio Internacional de Capoeira Ginga SocioEducaCultura (Capoeira como ferramenta de socialização e educação)
  • Universidade Zumbi dos Palmares
  • Av. Santos Dumont, 843 Ponte pequena
  • São Paulo – SP
  • (presença do Mestre Roxinho)


Diogo Brunner

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