Ana Filipa Carvalho

Estudante de Belas-Artes apreciadora de todas as formas mágicas de Arte mas com um fraquinho enorme por música.

As Portas da Percepção e Os Doors

Uma pequena reflexão acerca dos loucos anos 60, um livro revolucionário e uma mítica banda de Rock.


E se a realidade que percepcionamos não fosse de facto a existente?

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Em 1965, na praia de Venice, na Califórnia, Jim Morrison e Ray Manzarek, então colegas da escola de cinema da UCLA, fundaram a banda “The Doors”, cujo titulo ecoava a citação The Doors of Perception, do poeta William Blake. Os Doors são um exemplo perfeito da criação artista dominada pela frase de William Blake, que dá origem ao livro de Aldous Huxley " As Portas da Percepção ": - “If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is, infinite. (Se as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá ao homem como é, infinito ).

Morrison ocuparia as vozes e Manzarek, o teclado. Pouco depois, conheceriam John Densmore e Robby Krieger, que se tornaram baterista e guitarrista da banda, respectivamente. Seis anos mais tarde, os “The Doors” já eram considerados uma das bandas mais influentes dos Estados Unidos da América. Mas, nesse mesmo ano, Morrison morreria tragicamente em Paris. Figuras indissociáveis dos anos 60, os Doors foram um reflexo da inquietude social que os EUA atravessaram durante aquela era, da qual a Guerra do Vietname, segregação racial, assassinatos (Martin Luther King, Robert Kennedy, Sharon Tate…) e uma constante juventude em luta foram os principais estandartes. Todos estes aspectos vivem, lado a lado, com o descritivo da ascensão e queda dos The Doors e, sobretudo, de Jim Morrison.

Aldous Huxley com o seu livro, As Portas de Percepção, procurou, ao contrário de Morrison, descrever apenas os efeitos químicos que a mescalina fazia em seu corpo. Pensava ele que viria formas inusitadas e fantasiosas no entanto a percepção dos objectos é que foi alterada, tornando possível uma outra dimensão. Jim Morrison estava mais preocupado em atingir um nirvana psicológico que lhe permitiu abrir as portas da criatividade musical e poética, tornando a sua banda numa das bandas mais marcantes de sempre.

É interessante que nos anos 60 houvesse este boom de liberdade e rebeldia contra o status quo. Toda a gente queria experimentar drogas, comportamentos considerados desviantes ou obscenos, na procura de uma liberdade interior.

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Nas drogas, nomeadamente o LSD, mescalina, ácidos… tudo servia para despertar os sentidos e provocar “boas viagens”. No entanto algumas dessas viagens comprovaram-se em algumas pessoas fatais…levando à loucura devido a consumo excessivo. Aliás hoje em dia está cientificamente provado, que certas pessoas com predisposições genéticas para a esquizofrenia ou outras patologias mentais podem, pelo consumo de drogas, activar o “monstro” mental que há dentro delas, agravando ainda mais essas patologias. Huxley não ficou louco, segundo consta, o seu interesse era na própria percepção e no desvendar desse novo mundo de espaços alterados.

A ideia a reter é que o cérebro é obrigado a impor limites aos estímulos que recebe. Nesse sentido somos limitados Se pensarmos bem, estamos constantemente a receber estímulos visuais, auditivos etc. Era impossível ao cérebro filtrar toda a informação de modo a que nos chegasse de modo racional e descodificado. O cérebro é dotado de um certo numero de sistemas enzimáticos que servem para coordenar o seu funcionamento. Algumas dessas enzimas visam regular o fluxo de glicose destinado a alimentar as células cerebrais. O que a mescalina faz, é inibir a produção dessas enzimas, diminuindo a quantidade de glicose disponível e consequentemente os estímulos, tornando o que estamos a ver recheado de informações completamente novas. Nova percepção, dando a sensação dos objectos pairarem no ar, uma maior percepção das cores mesmo as mais imperceptíveis num estado normal…tudo enganos do nosso cérebro.

Era impossível vivermos nesse estado permanente…acabaríamos por ficar loucos e prejudicar gravemente a nossa saúde, no entanto é curioso pensar que poderíamos ver o mundo de maneira diferente, se o nosso cérebro não fosse tão limitado. E se a realidade que percecionamos não fosse de facto a existente?

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Huxley diz-nos: “ Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma “.

De facto, as dificuldades sociais e económicas da sociedade levaram sempre á procura de refúgios, de modo a atenuar a dor, mas o que me importa e acho interessante e o que me merece reflexão, é se de facto, atingimos, com a droga esses tais paraísos artificiais ou, na verdade, são realidades, a que não temos ainda acesso sem ser artificialmente.

Essas tais realidades inacessíveis não estarão armazenadas no nosso subconsciente emergindo à superfície da nossa percepção pela Arte? Pela imaginação? De certo, a poesia de Jim Morrison nos pode dar certas respostas.

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Ana Filipa Carvalho

Estudante de Belas-Artes apreciadora de todas as formas mágicas de Arte mas com um fraquinho enorme por música..
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