Ana Filipa Carvalho

Estudante de Belas-Artes apreciadora de todas as formas mágicas de Arte mas com um fraquinho enorme por música.

The Cure – A Cura Musical de Robert Smith

Crónica pessoal sobre a banda The Cure. Uma cura musical para a alma.


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Trinta anos de carreira cheia de sucessos, contratempos e vicissitudes não se conseguem resumir em apenas um artigo, tal é a extensão da história da banda. Esta é, pois, apenas uma breve viagem à história e álbuns da banda. Mas, falar dos The Cure é falar no seu carismático vocalista: Robert James Smith.

Quando, em 1976, Robert Smith formou os The Cure com Leo Tolhurst, não era suposto ele ser o vocalista da banda. Mas como ninguém o queria fazer Smith chegou-se á frente. Arrependido com certeza não estará. Apesar do auge da banda se ter situado nos anos 80, os The Cure continuam a dar concertos actualmente por esse mundo fora, com lotações esgotadas e sucesso garantido. Nostalgia da geração do post-punk? Talvez. Ou meramente um caso raro de sobrevivência de uma banda que se destacou no rock gótico, passou pelo post-punk e virou nos últimos anos para o pop-rock numa atitude mais relaxada só permitida aos senhores com muitos anos de carreira.

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Quem pensa nos The Cure pensa em Robert Smith. O vocalista funde-se com a banda ou será a banda que se funde com o vocalista de rímel, lábios esborratados de vermelho e cabelo desgrenhado? Vou mais pela segunda hipótese realmente. Robert Smith é os The Cure. Ele é o vocalista e o porta-voz da banda. É também, curiosamente, o único membro que permanece desde a formação inicial em 1976 consolidando ainda mais o argumento que os The Cure são a banda de Robert Smith. De facto, a banda já teve mais de oito elementos rotativos em sua formação ao longo das décadas. E já são mais de trinta anos de criatividade. Outro argumento definitivo como base para essa afirmação é que Smith é actualmente produtor, compositor e multi-instrumentista da banda.

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Começo pelo primeiro single da banda “ Killing An Arab”. Era uma amostra da onda punk que reinava quando a banda começou. É uma das minhas preferidas. O belo riff “das arábias”, a simplicidade da estrutura, a leveza da melodia meio punk-alegre é boa. Muito boa. O primeiro álbum "Three Imaginay Boys" de 1979 é pois o mais “punk” da banda. A trilogia seguinte dos álbuns "Seventeen Seconds", "Pornography", "Faith" mais o álbum "Disintegration" é para mim o ciclo mais interessante e inspirador de Smith. Porquê? Porque inquieta, fascina e seduz. O chamado período obscuro, que ainda hoje cola aos The Cure a imagem de góticos, só faz sentido porque de facto foi marcante e tem muita qualidade. A definição sonora feita pela própria banda agrada-me e passo a citar: " As linhas de baixo são melódicas e dominantes; as vozes lamuriosas e sufocantes; existe uma obsessão lírica com o existencial, é quase um desespero literário".

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Emoções pesadas como raiva, ódio e isolamento estão lá. Tenho que agradecer profundamente aos The Cure por essa obra–prima do "Seventeen Seconds" chamada "A Forest"! Uma deliciosa viagem pela floresta sombria dos nossos sonhos . Uma das melhores musicas compostas por eles. O álbum "Faith" de 1981 segue pois a mesma linha depressiva com a grande “ All Cats Are Grey”. O pico da negritude de espírito é o álbum "Pornography". Abre com a música “ One Hundred Years” talvez o riff mais depressivo e doentio da história do rock. Continua o desespero, a insanidade entranhadas na melodia, nos riffs da banda. O negro reina e Smith não tem problemas em usar a coroa do género que ele ajudou a consolidar: o Rock Gótico. Por muito que este “rótulo” lhe seja agora desagradável...

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Uma breve passagem pelo álbum " Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me "( a canção "Just Like Heaven" merece tal). Passando de seguida para o melhor álbum dos The Cure para muitos fãs e críticos, o álbum "Disintegration" de 1989. Concordo. "Plainsong", "Fascination Street", "Prayers for Rain"...servem muito bem de justificação. Volta a total melancolia e depressão pela voz de Robert Smith. Ele que se sentia no meio da crise dos 30 anos, em que segundo o próprio “ sentia que os tempos áureos da juventude estavam perdidos para sempre”. Pura nostalgia musical. De seguida, carrego no botão repeat na "Pictures of You", é das mais belas e conhecidas canções dos The Cure. Depois deste álbum, Laurence Tolhurst, que formara os The Cure com Smith, baterista inicial, abandona a banda. Robert Smith queria terminar com tudo, ameaçou jamais voltar a fazer uma tournée. Ficou-se, ainda bem, só pelas ameaças. Os anos seguintes foram marcados por álbuns mais comerciais do que alternativos mas de sucesso como o álbum "Wish" de 1992, que foi o mais vendido da banda.Vários singles atingiram o top dos mais vendidos a nível mundial como “Friday I´m In Love”.

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Passados todos estes anos os The Cure continuam a ser uma cura musical para os meus ouvidos, sempre que eles são afectados por uns certos decibéis de mau gosto emitidos pelas rádios. Fórmulas repetidas, gastas, sem ponta de inovação, vozes em "auto-tune" e gemidos insinuantes. Os The Cure são pois a cura perfeita. Nada como sacar dos velhinhos vinis ou CDS e ficar melancólica, alma rejuvenescida e aquela sensação gostosa de felicidade por ouvirmos algo de qualidade indiscutível. Passem os anos que passarem. É caso para dizer: Ficamos como no paraíso. Just Like Heaven.


Ana Filipa Carvalho

Estudante de Belas-Artes apreciadora de todas as formas mágicas de Arte mas com um fraquinho enorme por música..
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