apaixonadamente curiosa

pela complexidade do óbvio

Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!

Dexter - Todos tem algo a esconder

Dexter é o queridinho de quem gosta de séries policiais e psicopatas. Mas esse não é como os outros, porque o serial killer é o próprio protagonista e este é mostrado de uma perspectiva diferente da que estamos acostumados, é como ver como age um psicopata do ponto de vista do próprio.


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A série estreou em 2006 (2007 no Brasil) no canal Showtime. Baseada no romance policial "Darkly Dreaming Dexter", de Jeff Lindsay, se trata da vida dupla de Dexter Morgan, um detetive forense especializado em análise de sangue do departamento de polícia de Miami que nas horas vagas é um serial killer. Mas não se trata de um assassino comum, uma vez que mata apenas assassinos e tem um código de conduta criado pelo seu pai adotivo como um meio de nunca ser pego.

Na primeira temporada, Dexter deixava bem claro que era necessário agradar às outras pessoas e ser gentil, apesar de não sentir nada por elas, pois tinha consciência de que precisava disfarçar esta deficiência. Fica claro então que o Dexter não possui os sentimentos inerentes aos seres humanos como empatia, culpa e compaixão, ele apenas finge todas elas. Para reforçar a ideia da psicopatia, a autora acrescenta detalhes que fazem parte desse universo, 'sintomas' famosos como tortura de animais na infância - um clichê que realmente se identifica na vida real e na literatura psiquiátrica. O controle é algo evidente em sua personalidade, tanto na vida pessoal - notável no seu apartamento impecável -, na vida profissional - fato de ser perito e revelar detalhes de um crime através da analise minunciosa de respingos de sangue - e também na sua vida oculta - as mortes obedecem a um ritual que inclui deixar uma sala preparada para isso com plástico, luvas e a preparação do corpo para adequadamente ser descartado em uma corrente marítima.

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Afirmar que o distúrbio é decorrência de um trauma de infância é também é um clichê do senso comum. Sua mãe foi assassinada em um contêiner e ele foi deixado sozinho lá dentro, cercado de pedaços de corpos e sangue por vários dias. Dexter considera esse fato como explicação para o seu "passageiro sombrio" - conceito que aparece no livro Darkly Dreaming Dexter como representação do instinto assassino (ou da Id para os freudianos). Mas será que ter passado por uma situação traumática na infância justifica o desenvolvimento de tendências assassinas? Considerando que o irmão do Dexter também aparece como um serial killer, a série parece realmente associar a personalidade com o trauma. A diferença no caso de Dexter é que seu pai adotivo percebeu seu instinto assassino quando ele ainda era criança e tomou uma atitude inversa da que a maioria das pessoas imaginaria nessa situação. Contrariando os conceitos maniqueístas do bem e do mal, inventou um código para adestrar o instintos violentos de Dexter. O código inclui regras como matar apenas assassinos de inocentes, com propensão a continuar a faze-lo e só matar quando tiver provas suficientes de que o criminoso é culpado. Esse código assegura que ele mate apenas outros assassinos, como uma forma de canalizar os instintos violentos contra pessoas que "merecem", como se isso aliviasse o fato de estar tirando vidas, o tornando assim um assassino bom. A regra principal é não ser apanhado.

Outro clichê de Dexter é guardar troféus ou lembranças de seus atos: ele faz uma pequena incisão com um bisturi na bochecha da vítima e recolhe uma amostra sanguínea, que ele preserva numa lâmina de vidro e guarda numa caixa escondida dentro do seu aparelho de ar-condicionado.

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A série usa a inteligencia e a sutileza dos detalhes para levantar questionamentos sobre os padrões de comportamento e ética. Por um lado, Dexter representa um retrato de todos nós, cristãos ou não, com nossas dúvidas existenciais e luta diária com regras de conduta contraditórias e comportamento baseados em certo e errado. Mas também é um convite a um universo conhecido por despertar a curiosidade geral, os psicopatas. A questão principal é discutir a possibilidade de alguém viver acima do considerado certo e errado (ou bem e mal). A primeira temporada é uma apresentação onde os sentimentos - ou principalmente a ausência deles - é mostrado como uma justificativa e ao mesmo tempo consequência do transtorno de Dexter. A partir da terceira temporada ele parece se humanizar levemente, o que provavelmente, seja algo impossível na realidade das psicopatias, mas na série é uma forma de garantir a continuidade, evolução e indicar um possível desfecho que há quem acredite que será trágico ou os mais otimistas que acreditam que a talvez a redenção de nosso amável serial killer viria da culpa que ele talvez carregue por saber que o pai se matou ao se dar conta do que o filho se transformou ou ate uma culpa distorcida que ele tenha sentido pela morte da mãe.

A sétima temporada promete ser mais reveladora sobre a infância de Dexter e o que o teria levado a se tornar um psicopata, e talvez elucide os meus próprios questionamentos sobre as causas dos transtornos: será que Harry 'adestrou' ou criou um monstro? Ou será que o verdadeiro psicopata nessa história seria o próprio Harry, um policial que encontrou uma outra forma de tirar assassinos, estupradores, e todo tipo de criminosos das ruas?

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Ja dizia Sartre que “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Nas seis primeiras temporadas assistimos todos os questionamentos de Dexter tentando entender seu próprio passageiro sombrio, na última vamos ver qual será o desfecho dessa existência carregada de dúvidas e sombras.

Atualização

A sétima não foi a última temporada, como sugerido durante a exibição da mesma. E após a agoniante oitava temporada, apenas uma nota

Mais uma temporada. Com mais conflitos do que a anterior. Um final que se arrastou por mais 12 episódios em que Deb mergulhou numa culpa profunda e ressurgiu com a condescendência que parecia impossível. Dos conflitos de Deb ao autoconhecimento de Dexter, descobrindo sobre seu passado e os passos que o levaram a ser o que é, o que por alguns episódios o fez deixar de ser. Durante toda a série acompanhamos as reviravoltas de nosso amado Dexter entre seu passageiro sombrio e sua vida real. Chegamos a acreditar que o final feliz seria possível. Mas seria? Por mais que tenha despertado simpatia e se tornado um adorável anti-herói, seria possível um final que desafiasse os limites entre o bem e o mal que estamos acostumados? O final que teve contornos trágicos, foi de longe o que se esperaria para um vilão, e embora os últimos momentos tenham tido certo sacrifício heroico do personagem, não fez mais do que dar às sombras o que é das sombras. A decepção dos telespectadores é compreensível, mas foi um final honesto. Dexter não era apenas um vilão a ser desmascarado e sofrer as consequências, não era um mocinho pra se dar bem no final. A sensação de estar sempre diante do bom e do mal permanece, como um caminho do meio, um beco escuro, sem saída e sem final para um eterno passageiro sombrio.


Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!.
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