apaixonadamente curiosa

pela complexidade do óbvio

Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!

Mistérios e Paixões de um Almoço Nu

Numa noite chuvosa e absolutamente despretensiosa me deparo com máquinas de escrever que se transformam em insetos que falam, paranoia e conspirações sobre alguma nova ordem de alguma coisa qualquer. Há aqueles que considerariam rever meu receituário e reavaliar minha esquizofrenia não fosse a bela surpresa trazida pelo genial cineasta canadense David Cronenberg.


Almoço Nu.jpg

Pois trata-se de uma adaptação do livro Naked Lunch (O Almoço Nu) [1959] de William Burroughs, transformada inadvertidamente em Mistérios e Paixões, num desses sempre muito inspirados péssimos títulos que as distribuidoras brasileiras nos agraciam. Livro esse, inclusive, autobiográfico, que retrata as experiências do próprio Burroughs em relação a sua dependência de drogas.

Filme gravado em 1991, Cronenberg utiliza-se essencialmente – e de forma impecável – o desconforto para conseguir catalisar as vísceras do espectador. E consegue. O personagem principal Bill Lee (Peter Weller) [sim, ele mesmo, o próprio Robocop!] é um aspirante a escritor que na verdade tenta pagar suas despesas trabalhando como dedetizador. Prestes a perder o emprego por conta do constante desaparecimento do pó utilizado para matar os insetos, Lee descobre que sua esposa, Joan, está viciada na substância. Incentivado por ela, Lee passa a injetar a droga em si mesmo e partir desse momento instala-se o bizarro e o caótico dentro da narrativa.

Almoço Nu - Naked Lunch.jpg

Num mundo de alucinações e paranoia, o personagem constantemente se perde entre o que é real e o que é ilusão. Esse é o ponto que mais causa incômodo no espectador visto que Lee busca constantemente um não-se-sabe-que imergido dentro de um dever inexplicável de criar relatórios em uma máquina-de-escrever-inseto para uma organização que não existe por conta de um complô com o qual o personagem nunca sabe o motivo de fazer parte daquilo. De qualquer forma, é exatamente essa aparente inconsistência non sense que caracteriza a identidade do personagem principal.

Os primeiros vinte minutos de filme selecionam o espectador. O desconforto gerado propositalmente por Cronenberg pode ser facilmente confundido com algo ruim e negativo a olhos mais rasos e levar o espectador, em certos momentos, a uma repulsa escatológica e uma sensação latente de incompreensão. Porém, um filme magnífico que se analisado mais profundamente revela-se uma grande obra prima.

naked lunch.jpg


Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// //Mylanne Mendonça