apaixonadamente curiosa

pela complexidade do óbvio

Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!

Azul é a cor mais quente?

Um outro olhar sobre o aclamado e polêmico La vie d'Adele (Azul é a Cor Mais Quente)


O filme foi baseado em uma HQ chamada "Le bleu est une couler chaude" (Azul é uma cor quente) da escritora Julie Maroh. Tanto o filme quanto a historia em quadrinhos centra-se no encontro entre Adèle (que na HQ chama-se Clémentine) e Emma com algumas diferenças de perspectiva entre as duas narrativas, o que é normal considerando que se trata de uma adaptação livre. Resumindo o longa, a atriz Adèle Exarchopoulos interpreta Adéle, adolescente que vive com seus pais, numa casa modesta no interior da frança e que em certo momento começa a questionar seus sentimentos enquanto vive suas primeiras experiencias afetivas e sexuais. Mas é ao encontrar uma jovem de cabelos azuis, a bela Emma (interpretada por Léa Seydoux) que Adèle vê sua vida mudar. Até então, o enredo parece estar de acordo com o que pretende o diretor Abdellatif Kechiche, que era contar uma história de encontro, de amor, de descobertas através de uma vida e um encontro capaz de transformá-la. Mas um olhar mais crítico tráz a tona reflexões e questionamentos que a primeira vista são ignorados pelo grande público.

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[Com a intenção de lançar um 'outro olhar' não vou me repetir e comentar sobre as polemicas envolvendo acusações de abuso por parte das protagonistas contra o diretor, mesmo porquê caberia uma discussão aprofundada sobre a relação diretor/elenco, considerando o contexto e abrangendo todos os lados da questão, situando o caso entre outras acusações de abuso e violência contra a mulher na industria cinematográfica. ]

Considerando que as cenas de sexo explícito - em especial a que durou quase 10 minutos - foi o que mais repercurtiu antes e depois do lançamento oficil do filme, a observação a ser levantada e com o qual faço coro diz respeito ao fato do relacionamento homossexual ser representado de uma perspectiva heteronormativa - pra não dizer voltada ao imaginário masculino. A primeira observação que faço é em relação ao roteiro - ainda que adaptado de uma historia escrita por uma mulher - ter sido escrito e dirigido por um homem, heterossexual e "pai de familia", o que nos leva a questão: se o filme fosse escrito e dirigido por uma mulher ou lésbica, o ponto de vista seria diferente? Na opinião da socióloga, professora universitária e reconhecida militante queer Marie-Hélène Bourcier, a resposta é sim. "De acordo com sua crítica, um filme com as duas mulheres se pegando, esperando o cara chegar, seria um pouco mais honesto – ao menos, nesse caso, o dispositivo é claro: é um filme para homens." A propria Julie Maroh, autora da HQ que inspirou o filme faz uma crítica em relação a representação da relação lésbica no longa:

"Me parece claro que foi isso que faltou na tela: lésbicas. Eu não conheço as fontes de informação do diretor e das atrizes (que até que se prove o contrário são todas hétero, e eu não fui consultada previamente [...]. Porque – com exceção de algumas passagens – o que isso me evoca: uma ostentação brutal e cirúrgica, demonstrativa e fria do sexo dito lésbico, semelhante ao pornô [se referindo ao pornô mainstream, feito para homens], e que me deixou muito desconfortável. Sobretudo quando, no meio de uma sala de cinema, todo mundo cai na gargalhada. Os heteronormativos, porque eles/elas não se identificam e acham a cena ridícula. Os homos e outras transidentidades, porque não é credível e porque eles/elas acham igualmente a cena ridícula. E, em meio aos únicos que não riram, há os eventuais caras que estão ocupados demais tendo uma ereção diante de um de seus maiores fantasmas."

Kechiche e Adèle.jpg Kechiche e Adèle

O site Huffington Post, divulgou um vídeo chamado “Lesbian React To Sex In ‘Blue Is The Warmes Color’” mostrando a reação de espectadoras lésbicas ao assistirem a cena do filme. De acordo com o site, o diretor filmou a cena com foco no que ele achava bonito - daí a perspectiva masculina e heteronormativa - mas as espectadoras convidadas a assistir as cenas discordaram dele quanto à "beleza" da cena. No vídeo, publicado no YouTube vemos expressões de excitação, desconforto, tédio e graça:

Não há como ignorar o fato das atrizes serem heterossexuais e terem revelado inclusive certo desconforto na realização das cenas, mas a especulação por parte da imprensa sobre a sexualidade das protagonistas, leva a questionar se a dúvida é se elas fizeram sexo "de verdade" ou se duas mulheres podem fazer "sexo de verdade" e sem a presença masculina. E não é apenas as cenas de sexo que incomodam pela forma como são representadas, mas o relacionamento como um todo, cenas que fazem analogia a um casal hétero tradicional com clara separação de papeis. Na construção dessa representação, está presente um outro aspecto que passa despercebido - ou - não: o fato das personagens serem construídas dentro de dinâmicas sociais distintas em que Adèle é de família de classe média baixa, que come o macarrão com os pais e cujo a única ambição de vida é tornar-se professora de crianças, enquanto Emma estuda belas artes e sua família tem gostos mais refinado. Na vida a duas essas diferenças se tornam mais óbvias, como no momento em que Emma reúne amigos e conversa sobre assuntos fora do alcance - e até mesmo interesse - de Adèle, que por sua vez se dedica a cozinhar seu macarrão, receber e servir os convidados. Fechando essa construção que lembra um conservador casal heterossexual, a noite termina com Emma deitada lendo um livro enquanto Adèle arruma a bagunça e lava a louça da festa. A traição de Adéle com um colega de trabalho que leva ao fim do relacionamento, demonstra não apenas uma posição distinta diante da própria sexualidade (enquanto Emma entende sua homossexualidade como uma questão política e central em sua vida, para Adèle é algo que se desenvolve apenas na sua intimidade), mas também finaliza a história plantando a ideia de um relacionamento entre duas mulheres não é completo, faltando a presença de um homem.

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Não deixo de concordar que do ponto de vista técnico o filme tem sua beleza, com uma trilha sonora que dá o tom certo e bela filmografia, mas nas suas quase 3 horas de duração, dá tempo suficiente de observar e analisar com certa criticidade, principalmente quando se trata de um tema que inevitavelmente diz respeito a uma questão muito passível de discussão como relacionamento homossexual.


Mylanne Mendonça

Observando com interrogação. Vivendo com exclamação e sonhando com reticências!.
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