Max Fritz

Rilke e a força da solidão

Rilke ensina que a solidão, apesar de evitada por ser dolorosa e incômoda, é necessária e com ela temos muito a aprender.


Hoje em dia já não se escrevem cartas. Anos atrás, no entanto, era um hábito bastante comum, sendo para algumas pessoas até mesmo um hábito compulsivo. A consequência de se escrever muitas cartas é o desenvolvimento da capacidade de expressar o que se sente e articular argumentos e ideias de forma clara e interessante. Pois bem, Rainer Maria Rilke era um epistológrafo contumaz e disso se aproveitou Kappus, um jovem que manteve uma longa e fértil troca de correspondências com o poeta praguense (transcritas no livro "Cartas a um Jovem Poeta").

Rilke.jpg Rilke e seu olhar solitário e reflexivo

Muito se pode aprender dessa troca de cartas entre Kappus e Rilke, mas o maior legado é sobre solidão e tristeza. Não se sabe o quanto Rilke acreditava no que escrevia, mas suas ideias são claros frutos de uma inteligência criativa e articulada. Como grande parte dos maiores poetas (Allan Poe, Lord Byron, Drummond, Fernando Pessoa, Walt Whitman e muitos outros), ele era profundamente solitário e defendia sua própria solidão:

“[...] ame a sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. Pois os que são próximos do senhor estão distantes, é o que diz, e isso mostra que o espaço começa a se ampliar à sua volta. Se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão.”

A solidão é o momento em que estamos completamente expostos a nós mesmos. É essa a razão de tanta oposição que nós mesmos fazemos a esses momentos. É na solidão que mais podemos aprender, ver e sentir aquilo que nos parecia inalcançável e inimaginável em momentos de ruído, risadas e conversas.

cinema-la-grande-bellezza-08.jpgEm A Grande Beleza, os pensamentos mais profundos de Jep Gambardella acontecem em momentos solitários

É evidente que a convivência também nos tem muito a oferecer, mas apreender a vida, seus significados e consequências, se faz na solidão. E a solidão é extremamente sensível à dor, infelicidade e tristeza.

A solidão é como um grande espelho, em que podemos nos ver com nitidez, e que, apesar de provocar dor e vergonha, nos oferece um autoconhecimento e crescimento indispensáveis.

A Solidão é como um espelho, em que podemos nos ver e aprender com isso

Rilke ressalta ser a tristeza, ao lado da solidão, outro momento de grande importância. A tristeza solitária aguça a sensibilidade nos dá um acesso direto à realidade das coisas. O homem triste e solitário é profundamente próximo à realidade dos fatos e relações, tem uma compreensão muito sensível e suscetível ao que acontece. Uma mente dispersa e submersa em ruídos e gargalhadas é uma mente que enfrenta dificuldades em perceber a essências das coisas.

la-grande-bellezza.jpgEnquanto momentos ruidosos se assemelham a sonhos com pouquíssima reflexão

“Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora.”

rainer-maria-rilke.jpgO jovem Rilke, logo após deixar o serviço militar

O problema é que a tristeza e a solidão são dolorosas e incomodam, mas a dor e o incômodo não são males necessariamente. A visão utilitárias de que se deve fugir da dor desconsidera todo o benefício e força da dor. Por acaso teria sido Dostoievski o escritor que foi se tivesse sido poupado da dor? São inúmeros os exemplos.

dostoievski_fotografia.jpgDostoievski, que certamente passou por momentos de grande tristeza e solidão

“Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que as nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge a quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.”

A dor constrói e fortifica. Evidentemente não se deve buscar a dor, pois a dor como fim é doentia, mas a dor em que se incorre quando proposta pelo curso e fatos da vida é uma dor construtiva.

[Todos os trechos em itálico deste texto foram retirados de capítulos diversos de Cartas a um Jovem Poeta, cuja breve leitura se recomenda a todos]


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