Na metade de «360» o novo filme de Fernando Meirelles com um elenco estelar fiquei me perguntando o porque que eu insistia em me convencer que gostava do cineasta. Sou fã inconcidional de «Cidade de Deus» e sou entusiasta da luz que ele trouxe para a produção nacional - mostrando que qualidade e inteligência poderiam sim andar de mão juntas - mas, quando olho para a sua filmografia irregular, não consigo ver um único título que tenha me agradado tanto quanto o seu filme mais famoso.
Simpatizo com Meirelles, com a sua estética de videoclipe (tão criticada) trazida da publicidade e com a humildade desconcertante que ele mostra nas entrevistas sobre os seus filmes. Mas a impressão que fica é a de que seus filmes nunca ultrapassam a barreira do mediano e que valem mais pela sua plástica visual do que pela história que têm para contar.
Pode-se culpar o fato de que depois de «Cidade de Deus» o cineasta se "vendeu" aos grandes estúdios americanos e perdeu a sua "integridade" artística, mas a bem verdade é que a qualidade dos seus filmes melhorou muito depois que Meirelles começou a fazer filmes falados em inglês. Seus filmes anteriores à «Cidade de Deus» («Domésticas» e «O Menino Maulquinho 2») são episódios constrangedores que só ficam bem na tela quando passam na televisão no domingo à tarde. Ainda que tenham sido filmes feitos sob encomenda ou que o êxito de «Cidade de Deus» tenha ajudado a obscurecê-los.

O seu novo filme é cheio de boas intenções mas segue o mesmo manual dos filmes-mosaico: pessoas em várias partes do globo vivendo suas vidas anonimamente, múltiplas tramas que são construídas em paralelo e que vão se encontrando conforme a narrativa avança. Em «360» as histórias se passam em Viena, Paris, Londres, Colorado, e Bratislava.
Meirelles revisita os lugares comuns do "só vivemos uma única vez" e não consegue escapar da psicologia simplória e reducionista do formato televisivo mais acéfalo. O filme não é necessariamente ruim mas nunca sai da sua escala em monotone.
O roteiro (de Peter Morgan) é inspirado numa novela de Arthur Schnitzler e a super produção conta com não menos que Jude Law, Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Ben Foster e os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré. Um elenco de luxo, roteirista respeitado, 8 milhões de orçamento e muita gente talentosa envolvida num filme que tinha tudo para dar certo.

Então o que é que deu errado?
Talvez «Cidade de Deus» seja um daqueles casos de maldição na carreira de um cineasta. Assim como «Donnie Darko» foi no currículo de Richard Kelly ou, em outro contexto, «O Sexto Sentido» foi para M. Night Shyamalan, Meirelles periga carregar a maldição de diretor de um filme só. Embuído da responsabilidade eterna de fazer outro sucesso de público e de crítica que foi «Cidade de Deus».
Na coletiva do filme no Brasil, Meirelles concorda, constrangido, quando é perguntado sobre o público ter perdido o interesse pelos seus filmes: "É uma afirmação dura dizer que o público não está interessado, mas os números dizem um pouquinho isso (...) [o filme] necessita atrair 300 mil espectadores. Com esse número, está 'tudo em casa' – abaixo disso, alguém vai sair perdendo".
Enquanto isso, eu continuo aqui, torcendo e me simpatizando por Meirelles e sempre com altas expectativas para os seus próximos filmes. Não sou um daqueles fundamentalistas que espera que ele faça outro «Cidade de Deus» mas tenho a pura convicção de que alguma coisa precisa acontecer ao seu cinema.
Comentários
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Gabrielle Castilho
Como andava meio enjoada dos blogs sobre cinema que leio, o seu texto veio como uma brisa de esperança para mim.
Acho que essa é a primeira vez que visito seu blog e já tenho certeza que voltarei.
Ah! Eu gostei de "O Ensaio Sobre a Cegueira" também.
Gilvan Caetano
Achei o file magnifico. E aco que o recorte utilizado para a cr´tica não foi explorado o suficiente. Dizer que 360 º não é bom, é no minimo curioso.
Wellington Almeida
E viva a diversidade de opinioes né, Gilvan? Um abraçO!
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