arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

Alexander McQueen - para além da moda

A publicação de um livro de fotografia que acompanhou o trabalho de Alexander McQueen durante 13 anos e o anúncio do novo diretor de criação da McQ - a segunda linha da grife de McQueen - traz o gênio do designer inglês de volta aos holofotes e relembra-nos como sua obra influenciou a cultura pop.


McQueen tribute inVogue May11sm.jpgAlexander McQueen tributo na Vogue americana, Maio de 2011, Steven Meisel© Primavera de 1999. Uma modelo com um vestido completamente branco surge nas passarelas da London Fashion Week ao som de música barroca. Ao invés do catwalk habitual, ela gira como uma bailarina numa caixa de músicas em meio à duas pistolas-robô que parecem saídas de um filme de ficção científica. Enquanto gira, as duas pistolas disparam tinta no vestido e a peça é criada ali mesmo, à frente de todos, numa clara alusão a técnica de pintar do pintor americano Jackson Pollock.

Esta talvez seja uma das mais icônicas apresentações do estilista inglês Alexander McQueen, que a cada coleção reinventava-se na passarela e alterava os padrões da moda contemporânea, deixando as expectativas para os seus desfiles sempre alta e concorrida.

alexander-mcqueen-outstanding-achievement-award.jpgO famoso momento «pistolas-robôs» onde uma peça é criada em frente aos presentes

Recentemente, duas notícias trouxeram o nome de McQueen de volta à ribalta: o nome de Alistair Carr à frente da direção criativa da segunda linha de roupas da grife de McQueen, a McQ e a publicação do livro da fotógrafa francesa Anne Deniau «Love Looks Not With The Eyes» onde acompanha, desde 1997, o trabalho de McQueen (quando ele ainda trabalhava na Givenchy) até os seus últimos dias.

Em pouco mais de dez anos, McQueen se impôs e imprimiu sua arte no mundo fashion e na cultura pop como poucos conseguiram. Dono de um estilo que não deixava ninguém indiferente, McQueen unia o hiperbólico e o clássico em suas criações, subvertendo a máxima «menos é mais» e elevando as suas peças à condição de instalações e performances únicas.

mcqueen_book.jpgCapa do livro de Anne Deniau «Love Looks Not With The Eyes» Foto: Divulgação

Quem poderia imaginar que Lee Alexander Mcqueen, menino de família pobre, criado nos subúrbios de Londres e que nunca chegou a acabar o secundário fosse tornar-se num dos mais respeitados e celebrados fashion designers do mundo? Talvez nem o próprio. Nascido em 17 de Março 1969, foi um dos seis filhos de Ronald, motorista de táxi e Joyce, professora primária. Durante a adolescência sofreu bullying dos seus colegas de escola por causa da sua homossexualidade e, por isso, abandonou os estudos aos 16 anos indo trabalhar na Saville Row, famosa por seus ternos feitos sob encomenda para homens. Desde então, McQueen não parou mais: mudou-se para Milão, onde trabalhou como assistente de design e, alguns anos mais tarde, frequentou a Central Saint Martins College of Art e Design, onde tirou seu mestrado em Design de Moda em 1992. Seu projeto de conclusão de curso, inspirado em outro Jack, o Estripador, foi adquirido em sua totalidade pela excêntrica estilista londrina Isabella Blow, que viria a ser uma amiga íntima de McQueen ao longo de toda a sua vida. Dizem que o convívio diário com Blow foi peça-chave na lapidação do estilo de McQueen.

mcqueen alem da moda.jpgO famoso sapato «Armadillo» imortalizado por Lady Gaga

As suas criações, ao longo dos anos, viraram sinônimo de excentricidade e extravagância, criando uma espécie de nova leitura da arte contemporânea. Os seus últimos anos de vida foi talvez a época de maior intensidade criativa do designer londrino, criando peças que transcendiam à sua simples condição de vestuário de moda. O seu estilo, apesar do peso da alta costura britânica na sua formação, ficou consagrado por um certo toque de rebeldia e anarquismo. McQueen se utilizava do clássico para fazer uma espécie de desconstrução da arte; quebrava totens e lugares comuns e deturpava o belo com toques grotescos de uma natureza selvagem. Este híbrido de influências díspares fizeram com que suas criações se destacassem também no contexto da arte e cultura pop.

Na área da música, o nome de McQueen teve uma grande projeção; especialmente depois que artistas como Björk e Lady Gaga passaram a fazer uso das suas peças e até usá-las em seus videoclips.

alexander-mcqueen-bjork.jpgA famosa parceria entre Alexander McQueen e a cantora islandesa Björk

O sapato «Armadillo», com salto de 25 centímetros e imitando as formas dos pés de um fauno, foi usado num dos videoclips mais famosos de Gaga «Bad Romance» e virou imagem de marca da cantora. Já Björk foi mais polémica e foi vestida de «cisne morto» na cerimônia do Óscar de 2001, uma das criações mais controversas de McQueen e que ajudou a alimentar a sua fama de gênio maldito.

A década dos zeros foi a década de McQueen, e também foi a década onde a sua luz foi apagada. Quando o estilista nos deixou no começo de 2010 em circunstâncias misteriosas, encontrado enforcado em seu apartamento.Deixando vazio e silencioso, um lugar na moda e na arte contemporânea que continua lá, a espera de alguém que lhe faça a devida justiça.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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