arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

O que terá acontecido a Richard kelly? Quando a maldição do cinema chega a vida real

Em «A Caixa» Richard Kelly junta-se ao roll de profissionais do cinema que ficaram amaldiçoados por suas contribuições à sétima arte. Geralmente com um filme de muito sucesso, nunca mais conseguiram repetir o feito e se tornaram vítimas da sua própria arte.


donnie-darko.jpgJake Gyllenhaal e Jena Malone em «Donnie Darko» (EUA, 2001, Richard Kelly) Há certos filmes que, por obra do destino ou não, são uma verdadeira maldição na carreira de um cineasta ou um artista. Seja qual a for superstição do dia, a regra do jogo é uma só: o momento máximo da sua consagração torna-se no pior dos pesadelos, uma viagem ao abismo que vem com bilhete só de ida. E o que deveria ser a consagração absoluta, vira a desgraça total. A história do cinema está aí para nos dar muitos exemplos. Lembramo-nos agora de alguns casos mais mediáticos. Linda Blair, depois que apareceu no aterrorizante «O Exorcista» ficou literalmente amaldiçoada: teve os inevitáveis problemas com as drogas, sofreu perseguições por causa da sua atuação no filme, foi presa por posse de drogas e afundou numa infeliz e ostracizada carreira de atriz, de onde nunca mais saiu.

Kevin Williamson quando apareceu como o brilhante roteirista de «Pânico» (Scream) em 1996 foi considerado por muitos a salvação do cinema de terror. Além de ressuscitar - das trevas - a carreira do mestre Wes Craven, influenciou muitos outros filmes posteriores, escreveu as sequências - mais ou menos de sucesso - dos outros dois filmes da série e chegou ao ápice da sua carreira com a série «Dawson's Creek». Depois disso, foi um iminente e triste declínio.

scream.jpegDrew Barrymore numa cena de «Pânico» (Scream, 1996, Wes Craven) O roteirista tentou uma volta em grande estilo alguns anos depois dirigindo o sofrível «Tentação Fatal» (Teaching Mrs. Tingle) com a grande Helen Mirren como protagonista mas a experiência como diretor foi um tiro no pé. Com a fraquíssima bilheteria que o filme arrecadou mais o ódio unânime destilado pela crítica Williamson foi jogado para um canto dos estúdios e hoje escreve séries de terror sem ou quase nenhum interesse.

Michael Cimino é outro famoso cineasta conhecido por um filme só. A primeira frase da sua biografia na Wikipédia já entrega tudo: «Cimino é o exemplo paradigmático de uma carreira com uma ascensão meteórica e uma queda abrupta.» Após o seu «O Franco Atirador» (The Deer Hunter) de 1978 ter recebido 9 indicações ao oscar e ganho 5 delas (incluindo filme e diretor) pensava-se que era o momento máximo da sua redenção e início de uma carreira meteórica. Ledo engano, Cimino afundou numa carreira de sucessivos flops que lhe granjearam má fama e o apelido, auto-explicativo, de one hit wonder.

the-blair-witch-project-nose-snot-heather-donahue.jpgA cena mais famosa de «The Blair Witch Project» (EUA,1999, Daniel Myrick & Eduardo Sánchez)

Um outro caso popular mais recente são os amigos Daniel Myrick e Eduardo Sanchez. Ambos dirigiram um dos mais aterrorizantes filmes dos últimos anos «A Bruxa de Blair» (The Blair Witch Project) e, da noite para o dia, viraram a mais nova promessa do cinema. Foram bajulados como dois messias do cinema de terror, sempre lembrados por terem se utilizado de uma técnica de marketing completamente inovadora e que fez o nome deles cair na boca de todo mundo. O resultado, infelizmente, não fez jus a essa fama toda e eles - ironia do destino - foram os que desapareceram do mapa. Deixando orfã, uma legião de fãs que teve de se contentar com os filmes que surgiram depois utilizando a mesma técnica «documentário amador» de «Blair».

Os exemplos acima vêm à cabeça a propósito do último e inenarrável «A Caixa» (The Box) do (ex)menino prodígio do cinema independente Richard Kelly. Do filme anterior do diretor «Southland Tales: o fim do mundo» já não existe nem rastro. As dezenas de edições finais e os problemas com a produção condenaram o filme ao fiasco e a sua estreia no Festival de Cannes em 2006 foi uma coleção de críticas negativas. Todas elas davam conta de uma pergunta que não queria calar: será que «Donnie Darko» tinha sido o único e solitário golpe de gênio de Kelly? Com um filme tão brilhante e especial na bagagem, era impossível que se pensasse que ele podia errar a mão. Pois no seu terceiro filme, Kelly prova por A mais B que mais uma vez errou feio. «A Caixa» é tão desgraçadamente ruim e pretensioso que nos faz pensar se «Donnie Darko» não foi apenas um feliz acaso do destino.

the-box-cameron-diaz-james-marsden-money-button.jpgCameron Diaz e James Marsden numa cena do filme «The Box» (EUA, 2009, Richard Kelly)

A história é tão banal que se conta em uma frase: um casal americano de classe média (Cameron Diaz e James Marsden) recebe uma caixa em casa e têm duas opções: se apertarem o botão alguém que eles não conhecem morrem em algum canto do mundo e eles recebem um milhão de doláres em casa ou, se não apertarem, a caixa é passada adiante. Claro que eles pressionam o botão e as consequências aparecem. Kelly quer fazer uma parábola sobre a natureza humana, a sua podridão e ausência de valores morais, mas é tudo tão barato e tão constrangedor que só queremos que aquilo acabe logo. Mas não feliz com o tamanho absurdo, ele ainda faz várias referências a si próprio (!) mostrando portais e tecendo teorias mirabolantes sobre viagens no tempo.

Se Richard Kelly é uma fraude ou não, só o tempo nos vai revelar. A culpa pode ser da pressão exagerada que se seguiu após o seu momento de glória máxima ou, simplesmente, que ele nem nunca tenha sido assim tão bom. Só sabemos que, por enquanto, ele encabeça esta lista de talentos desperdiçados, figurando como um dos mais novos one hit wonder a afundar-se numa carreira cinematográfica cheia de equívocos e passos em falso. Nós aqui lamentamos. Muito profundamente.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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