Há um pequeno momento no começo de Precisamos Falar Sobre Kevin em que a mãe, Eva (magnífica Tilda Swinton) observa à distância o seu pequeno Kevin, enquanto ele brinca sozinho na sala. O menino ignora o olhar da mãe e ela pode contemplá-lo com a imparcialidade do julgamento materno, se permitindo ficar imersa nos seus pensamentos mais profundos. É nesse momento que detectamos a questão central da história e o filme evoca o pesadelo mais profundo de uma mãe: é possível colocar um filho no mundo e não conseguir amá-lo incondicionalmente?
«Precisamos Falar Sobre Kevin» conta a história de Eva, bem-sucedida, escritora de livros de viagens e casada com um marido que a ama mas que abdicou de tudo isso para dar à luz a um objeto estranho, o filho Kevin, que não consegue compreender e ter um relacionamento "saudável" de mãe e filho. Eva é uma mãe inadaptada, que tenta de todas as formas ter a atenção do filho mas a medida que este ultrapassa a fase entre a infância e a adolescência, a coisa vai tomando proporções assustadoras.
Já vimos esta história antes. O drama de Eva nos traz à memória O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby), o clássico de Roman Polanski onde Mia Farrow acredita piamente que carrega na barriga a semente do Diabo. Mas Polanski joga aqui com o incerto, com a dualidade do obscuro, e com a culpa cristã da mãe que pensa em sacrificar o próprio filho para salvar a si própria.Polanski se utilizava dos preceitos morais e religiosos para pincelar o seu quadro do terror; mas o simbolismo católico é um terreno onde «Temos de Falar Sobre Kevin» não quer pisar.
A sueca Lynne Ramsay não está interessada em questões religiosas, a culpa em «Kevin» é outra, é a de uma mãe que tenta dolorosamente descobrir onde falhou como figura materna.Eva abdicou de uma carreira de sucesso pela letargia doméstica do lar mas sabe desde o início - tal qual como o filho - que é uma estranha dentro do próprio ninho. E quando somos manipulados pelos flashbacks constantes de Eva, enxergamos o terror do seu olhar desesperado a medida que o ódio do seu filho cresce progressivamente.
Há algo de incestuoso na relação de Eva e Kevin. É uma relação de amor e ódio onde existe uma cumplicidade mútua não verbalizada. Quando a mãe o flagra a se masturbar, existe uma hesitação inquietante em pôr fim àquele momento. É como se a repulsa e atração pela descoberta da sexualidade do filho andassem de mão juntas e, por alguns segundos, as fronteiras morais e biológicas que os separam pudessem ser simplesmente derrubadas. Só que neste caso, a síndrome de Édipo descamba para uma conclusão de outros contornos e o final do filme, que faz lembrar a compaixão que Nicole Kidman sente pelo cão na cena final de Dogville, confirma essa teoria.
Eva acredita que é responsável por toda a maldade perpretada pelo filho mas também é como se soubesse que é tal e qual como ele, tentando desesperadamente se encaixar dentro de uma vida "normal" e assim se distanciando o máximo possível do seu lado mais negro: Kevin.
E para tal, sacrifica a própria sanidade em um emprego banal e uma vida medíocre onde apenas existir pode ser uma dádiva divina da qual ela não ousa reclamar.Como bem disse um crítico inglês, não é Eva que fez Kevin mas sim o contrário. Eva vê a sua existência e personalidade toda pautada pelo poder doentio do filho e pelo julgamento eterno de um crime que não cometeu.
E é este crime que ela tenta desesperadamente compreender.Como se a possibilidade de descobrir as motivações por trás do massacre hediondo pelo qual é responsabilizada por todos fosse libertá-la dos seus próprios demônios.
Já tínhamos visto a diretora sueca Lynne Ramsay no seu filme anterior, o interessante O Romance de Movern Callar (Movern Callar), e é notável a forma como ela defende com unhas e dentes as suas heroínas, sempre em busca de um sentido na sua impossibilidade de se encaixar no padrão.
Porém, no filme anterior, a personagem de Samantha Morton não precisava de coadjuvantes para dar a profundidade necessária à sua Movern Callar. Em «Kevin», Tilda Swinton carrega o filme todo nas costas e sentimos que a falta de complexidade da personagem que dá título ao filme (Ezra Miller) enfraquece o filme. Ramsey se limita a fazer uma caricatura da típica crueldade e cinismo adolescente, estereotipando a figura pueril do filho revoltado que se acha superior a todos à sua volta. E com isso, permite que todas as estruturas que sustentam o filme, se fragilizem e percam um pouco da sua força. Ainda assim, um filme de onde é impossível se sair indiferente.
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