arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

Poliça - o segredo mais bem guardado do ano

Flertando com a RnB, a percussão e o Auto-Tune, os Poliça - quarteto de Minneápolis liderado pela carismática Channy Leanagh - estream com um dos discos mais hypados de 2012: Give You The Ghost. Jay-Z já disse no seu blogue que é fã e Bon Iver se empolgou alegando que "era a melhor banda que ele já ouviu na vida". Depois da aclamação no mercado norte-americano, a banda parte em turnê pela Europa e está pronta para ganhar o mundo.


poliça ao vivo.jpgA história já nos provou anteriormente que discos resultantes de fortes desilusões amorosas são um verdadeiro bálsamo para o deleite de quem os ouve. Parece um lugar-comum mas é a mais pura verdade: é como se quisessemos tirar o máximo da dor alheia em benefício próprio para expiar as nossas frustrações mais profundas. Álbuns como «Blue» da canadense Joni Mitchell ou o seminal «Tidal» de Fiona Apple estão aí para não nos deixar mentir. No caso de Mitchell, após o fim da sua longa relação com o músico Graham Nash, a cantora caiu numa profunda depressão e decidiu que precisava de um tempo da sua terra natal. Então em 1970 embarca numa viagem de purificação da alma pelo sul da Europa e é aí, neste cenário bucólico de um triste verão europeu, onde encontra as forças necessárias para dar a volta por cima; e coloca toda a sua capacidade como letrista à prova escrevendo as letras mais pessoais de toda a sua carreira. Em uma entrevista anos depois, Mitchell alegou que estava tão vulnerável que sentia que não tinha nenhum segredo com o resto do mundo e simplesmente não conseguia fingir que era forte e feliz. O resultado dessa experiência se viu no irretocável «Blue», talvez um dos álbuns mais tristes de toda a história da música pop.

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Na poderosa estreia «Give You The Ghost» dos norte-americanos Poliça, a história é mais ou menos a mesma e o término de uma longa relação da vocalista Channy Leanagh é o ponto de partida para as 11 canções que completam este fabuloso disco. Já na música de abertura, «Amongster», Channy expõe as feridas de uma traição recente «apologies like the birds in the sky/ and even they are falling like the tears in my eyes/ Sly, you’re still a liar / your words are not enough» e nos dá uma pequena amostra do que está a nossa espera. As letras de Leanagh são tão confessionais que quase sentimos vontade de abraça-lá e tomarmos para nós a sua dor latejante. No single «Dark Star», que é quase um panfleto feminista, ela avisa que «ain’t no man in this world who can pull me down from my dark star» e acreditamos na sua catarse pessoal e auto-imposta. Ao vivo, a tímida Channy é um misto de fragilidade e explosão, entoando cada música como se fosse a última e como se tivesse mergulhado de cabeça na escuridão.

O projeto do Poliça começou quando Channy Leanagh, depois da saída da banda folk Roma Di Luna, decidiu lançar o seu próprio disco a solo. O músico - e então marido - Alexei Lua Casselle era a outra metade da antiga banda: «nós começamos a banda em 2006 e durante esse tempo eu tive um bebê», explica ela numa entrevista ao jornal inglês The Guardian. «Isso significa que o nosso casamento se tornou a banda, e era a minha primeira vez numa banda e a minha primeira vez estando casada». A medida que os Roma Di Luna foram fazendo mais sucesso, a relação do casal foi chegando ao fim. Ryan Olson, que na época trabalhava na sua mais recente banda (Gayngs), convenceu Leanagh a transformar as suas músicas já prontas num projeto novo e conceitual que geraria o Poliça.

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Apesar da forte presença de Channy Leanagh como front leader da banda, o grande mérito do álbum está no talento de Ryan Olson, o músico fundador e produtor da banda e que integrou o Poliça durante a gravação do disco. Na altura das gravações, Olson estava envolvido no superprojeto Gayngs, de onde é possível, aliás, se reconhecer várias influências no début do Poliça (ouça «The Gaudy Side of Town» e «No Sweaty» para entender), Olson é o grande responsável por esta feliz mutação entre eletrônica, RnB e post-rock por trás do Poliça. RnB este, que andava muito maltratado desde que Lauryn Hill deixou de fazer discos excepcionais nos anos 90, mas que vem ganhando uma grande força com novas bandas como The XX e The Weeknd.

Auto-Tune

Muito se tem comentado sobre o excesso de Auto-Tune na voz da vocalista Channy Leanagh. No mundo indie, este efeito vocálico sempre foi visto com alguma desconfiança, associado à artistas comerciais como Kesha, Cher ou Shania Twain. Mas, assim como os suecos The Knife, aqui é usado propositadamente e em favor de uma causa própria: a voz poderosa, soturna e desesperada de Leanagh ganha outros contornos estilísticos e os efeitos vocais (que também transitam pelo vocoder) junto aos sintetizadores, não só deixam a música da banda muito mais orgânica como se fundem em suas discrepâncias na perfeição. O tom de voz de Leanagh até faz lembrar, por vezes, os graves dramáticos da irlandesa Dolores O' Riordan dos Cranberries.

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Excessos, aliás, é um ponto que soma na música do Poliça: a banda tem dois exímios bateristas (que, ao vivo, parece uma coisa maior que a vida), um baixo que muitas vezes se sobrepõe à percussão (baixista, aliás, que também faz as vezes de backing vocal e nos surpreende com notas agudas altíssimas) e sintetizadores que ajudam a confundir a fácil catalogação da música do quarteto de Minneapolis.

É um disco de muito experimentalismo pop mas feito na medida certa, com riscos calculados e com uma ou duas falhas que passam despercebidas. Num disco inspirado e cheio de atmosferas obscuras e herméticas que tem tudo para ser o segredo mais bem guardado da música indie de 2012.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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