arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

Django Livre - Tarantino cresceu e ficou velho

Tarantino provou com Django Unchained o que já tinha ameaçado lá atrás com «Bastardos Inglórios»: que agora quer ser um cineasta político. E para isso, colocou Jamie Foxx no papel do ex-escravo que quer expiar todos os pecados da América, fazendo assim o seu filme mais "adulto". Só que esse amadurecimento não fez bem ao diretor, e o gosto amargo na garganta que fica após ver o filme, é desconfortavelmente indisfarçável.


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Talvez o adjetivo mais usado pela crítica ultimamente para definir os últimos filmes de Tarantino seja "amadurecimento". Amadurecer faz bem, ajuda a enxergar as coisas de uma forma mais sóbria e natural e também faz com que nos levemos mais a sério. Levar-se a sério, no caso de Tarantino, pode ter um peso de dureza que não combina muito bem com o seu passado. E esta "dureza" é a sensação que o seu último filme «Django Unchained» (e também o anterior «Inglorious Basterds») quer se fazer sentir.

A história de «Django Unchained» começa quando o escravo Django (Jamie Foxx) é libertado pelo dentista e caçador de recompensas alemão, Dr. Schultz (Christoph Waltz), pouco antes da Guerra Civil começar. A moeda de troca é a de que Django lhe ajude na captura dos irmãos assassinos Brittle. Mas esta é apenas uma parte da história, pois na segunda parte do filme, os dois justiceiros atravessam o Texas e o Mississippi numa jornada épica com o propósito final de salvar a esposa de Django, Broomhilda ((Kerry Washington) das mãos do cruel fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

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«Django Unchained» pretende ser um panfleto (disfarçado) "contra" o racismo, assim como o «Bastardos» pretendia ser um libelo anti-nazi, subvertendo fatos históricos - de forma tão propositadamente caricata e inverossímil - como se isso lhe tirasse a responsabilidade de seguir regras básicas de ética e do bom senso. Regras estas, aliás, que Tarantino já não quer subverter como fazia muito bem em Cães de Aluguel e em Pulp Fiction. Ao final de «Django Unchained» fica-se a impressão de que Tarantino quer fazer um filme sobre racismo mas sem sujar as mãos. Como se quisesse acender o pavio da sua bomba caseira mas estar bem longe quando ela explodir. Numa das entrevistas de divulgação do filme o diretor diz que foi aconselhado por um amigo a não falar da escravatura sob paninhos quentes: "ou você perde o medo e conta toda a história ou não conta de jeito nenhum". Tarantino optou pela primeira, mesmo que parece evitar, a todo momento, o comportamento condescendente do menino branco que "entende" a "causa negra".

Na coletiva de imprensa, Tarantino rebate as críticas de que tratou da escravatura de modo pejorativo e inconsequente e afirma que só queria mostrar ao público americano os horrores da escravidão. Ainda assim, o protagonismo da sua violência fetichista parece um argumento fraco na tentativa de justificar esta mancha na história.

Will Smith teria sido a primeira escolha para interpretar Django, mas o ator pulou fora do projeto por o achar demasiado político e com linguajar forte demais para as audiências americanas. Seria engraçado ver Smith, um dos representantes máximos do star system hollywoodiano, na pele do ex-escravo que quer fazer justiça pelas próprias mãos. Smith representa o outro lado da moeda do topo da cadeia alimentar: negro, rico, bem sucedido e com total controle sobre sua carreira, ele não ia querer mexer num time que se está ganhando e tocar num assunto tão controverso que, para ele, deve ser como o elefante no meio da sala.

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O "tarantinesco"

Um crítico do New York Times faz um paralelo muito interessante entre «Django» de Tarantino e o «Lincoln» de Spielberg, que diz muito sobre o caminho que o cinema do primeiro está tomando: "enquanto um abole a escravatura alterando a legislação o outro resolve a injustiça explodindo a casa-grande".

No limite, Tarantino virou uma espécie de prisioneiro de um gênero cinematográfico que ele próprio criou e, por isso mesmo, parece olhar para os seus primeiros filmes com o desdém de quem já não quer se divertir mais, pois chegou à tal fase adulta. A impressão que fica, é a de quem está sempre à procura de nos provar alguma coisa. E «Django Unchained» é talvez o filme mais auto-referencial do cineasta, recriando cenas dos seus filmes anteriores sem o menor pudor (Kill Bill é o que mais vem à cabeça), fazendo auto-plágio requentado de diálogos e tudo em nome de uma piscadela de olho politicamente incorreta que já não causa mais os efeitos de outrora.

E uma das falhas de «Django Unchained» talvez seja, justamente, essa necessidade em querer ser maior que a vida a todo instante. Ele quer abraçar vários gêneros ao mesmo tempo, prestar dezenas de homenagens à série B e ao western italiano, contar muitas histórias sem um fio condutor que seja relevante e convincente de verdade e, isto tudo, numa história sem clímax e sem a catarse narrativa de um Kill Bill. Para depois resolver tudo à balas e derramamento (desproposital) de sangue como se não soubesse o que fazer com a batata quente nas mãos. E essa falta de "protocolos" e de intimidade com a sua mise-en-scène é o que mais joga contra o seu filme.

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Mas Tarantino é um mestre em sua arte e faz cinema de autor com a destreza de um cineasta pop, transitando entre o mainstream e as páginas dos Cahiers com a desenvoltura e a segurança de quem sabe exatamente onde quer chegar. «Django Unchained» é o resultado desse crescimento e, por isso mesmo, o resultado de um cineasta que está sempre na mira dos holofotes e das elevadas expectativas, levando o seu cinema à um inevitável desgaste criativo.

Dito isto, importa esclarecer: Django Livre (como foi batizado no Brasil) é um filme interessante, com algum valor histórico, mas perdido no meio de muitas ideias anacrônicas e mal costuradas. É um filme político por acidente, feito com a mão pesada de quem se propõe a discutir um passado controverso que os americanos (Tarantino incluído) ainda não sabem muito bem como lidar.

Moral da história: alguma coisa de realmente interessante precisa acontecer ao cinema de Tarantino e ele tem o poder necessário para voltar a ser marginal e correr contra a maré, como sempre fez. Pois esse "amadurecimento" do qual se vê cercado parece mais uma "pressão cinéfila" auto-imposta, vinda de um tipo de cinema que ele sempre pareceu esnobar; e que nos faz ter saudades daquele tempo em que ele costumava se divertir muito mais do que os seus próprios espectadores.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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