arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

O mp3 e o Controller.Controller

Desde que apareceu, o mp3 nos reeducou a ouvir música e, mais importante, nos reeducou a consumir música.Da imensidão de opções que começou a pipocar por todos os canais online, não ficaram apenas as bandas de verdadeira relevância - como era de se esperar - mas sim as que tiveram sorte. E nesse percurso tortuoso da era digital, os canadenses do Controller.Controller foram umas das grandes bandas da década que não teve a mesma sorte.


1263332189controller_bio.jpg É engraçado a forma como a internet e a "geração mp3" nos reeducou a ouvir música. Ou ainda mais especificamente, a nossa forma de descobrir bandas novas e escutar discos novos. Nos saudosos anos 90 ouvir um disco, por exemplo, do Portishead (que só chegava por importação no Brasil) dois ou três anos depois do seu lançamento era coisa para poucos. Ouvir em menos tempo do que isso então, era para impressionar os amigos mais chegados e deixar outros tantos morrendo de inveja. A internet - dando nome aos bois: o mp3, o youtube, e o myspace - mudou completamente isso. Nos nossos ipods da vida, escutar um disco inteiro, pela sua ordem cronológica, é uma tarefa quase hercúlea e a tecla shuffle parece que foi feita mais para driblar nossa ansiedade do que para escolher músicas ao acaso. São tantas as bandas e discos novos que saem diariamente - e cada uma delas disputando a sua atenção da maneira mais criativa que puder, vide o caso recente do projeto The Weeknd - que se tornou praticamente impossível acompanhar uma "cena" musical propriamente dita. Se é que, em pleno 2011, podemos falar em "cena musical".

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Descobri os canadenses Controller.Controller há dois anos enquanto pesquisava bandas do Canadá. Lembro que ouvi algumas músicas no YouTube que me ganharam logo de cara mas naquele excitamento todo, com uma lista de bandas para ouvir, acabei deixando-os de lado. A banda editou dois discos «History» e «X-Amounts» em 2004 e 2005, respectivamente, e foram logo dois pertardos: post-punk para gente grande com letras que falavam em corações fraturados em pleno anos 2000.

A voz negra da Nirmala Basnayake e os riffs deseperados dos guitarristas Colwyn Llewellyn-Thomas e Scott Kaija davam toda uma aurea apocalíptica ao som da banda. Semana passada, como que por acaso, redescobri os discos tocando nonstop e sem o botão random no meu media player. Foi impossível não sentir aquela sensação que volta e meia acontece comigo, a de descobrir algo completamente novo que nos rouba imediatamente a atenção.

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Mas no final, a Wikipédia não trouxe muito boas notícias para mim: descobri por lá, inconsolável, que os Controller.Controller acabaram em 2006 com a saída da vocalista Nirmala. Disso tudo, ficaram os dois discos fantásticos e irretocáveis que, infelizmente, irão padecer na obscuridade da imensidão de trivialidades que o mp3 trouxe com ele.

Moral da história: saudosismo nunca fez bem para ninguém e nunca levou à lugar algum mas, cada vez mais, me sinto mais analógico e saudosista do que nunca. Pego de surpresa no meio de uma revolução da qual eu nunca pedi para fazer parte. Ah, que saudades das finadas fitas cassetes...


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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