arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

Humanæ - catalogando as nossas cores

A artista e fotógrafa carioca, Angélica Dass, teve uma ideia ambiciosa e genial: catalogar todos os tons possíveis da pele humana. Ou nas palavras da própria "um inventário cromático sobre as cores além das fronteiras de nossos códigos". E para o projeto usou como referência o sistema de cores PANTONE®.


Tudo começou com um projeto final de mestrado e o resultado foi uma coisa maior que a vida: registrar todos os tons possíveis da pele humana. Foi com essa premissa que a artista plástica carioca Angélica Dass deu o ponto de partida ao seu extraordinário projeto Humanæ. Usando a escala de tons da Pantone, Angélica tira fotos dos seus voluntários e preenche o fundo do retrato com a mesma cor da pele de cada um. Angélica, que mora em Madri, conta como o projeto mudou a sua vida.

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«Humanae significa Humano em latim. A inspiração para este projeto vem de minhas raízes familiares. Eu sou a neta de um “preto” e “indígena” e filha de um pai “negro” adotado por uma família “branca”. Então, eu sou uma mistura de diversos pigmentos. Humanae é uma busca para destacar a nossa verdadeira cor ao invés do falso vermelho e amarelo, preto e branco. Para mim, é uma espécie de jogo para subverter os nossos códigos. Como os códigos eu tento falar sobre o que aprendemos, muitas coisas que são tanto sociais, linguística e culturais, nuances do cotidiano que eu gostaria de repensar. Eu comecei este projeto como um trabalho final de master, em abril de 2012. As primeiras imagens foram feitas no Brasil, com alguns membros da minha família. Em julho deste ano eu comecei a fazer anúncios públicos através de redes sociais, dizendo onde eu estaria retratando e os que entendessem minha mensagem e quisessem participar eram bem-vindos. Mas que haja diversidade no projeto; eu trabalho em espaços que não são apenas no mundo da arte. As duas mil imagens do projeto são feitas em museus, galerias e feiras de arte, mas também em favelas, em ONGs, na sede da UNESCO, em cooperativas que trabalham com desabrigados. A diversidade do projeto não é apenas de rostos e cores, mas de classes sociais, nacionalidades, religiões, orientações sexuais, eleições políticas, status econômico…»

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«Dividir a população como branca, preta, amarela, parda ou indígena é uma das coisas mais kafkanianas que existem, para começar com a pobre palavra “indígena” que não é cor. A definição oficial de “pardo” é um retrato dessa mistureba: “não-brancos” e não enquadrados como amarelo ou preto. Essa mistura é uma das essências de ser brasileiro.

«Eu digo que sou negra, mas nas minhas veias correm sangue branco, preto e indígena. A pergunta que fica é como me declaro? Pela minha aparência? Pela minha mãe? Pelos meus avós? A obrigação da declaração me gera mais questões que certezas. Mas acrescento que estas classificações originadas no século XVIII finalmente encontram utilidade em uma política pública de cotas, que é um paliativo para um final de escravidão sem nenhuma política de educação e igualdade. Parece que cem anos depois algo pode ser feito por aqueles escravos do XIX que foram transformados em criados no século XX, vamos ver o que podemos esperar do século XXI.»

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«Eu tenho outro projeto aberto, que também trabalha com colaboração, e que se chama autodeclaração, como uma declaração de rebeldia ao fato de ter que escolher 5 opções dadas pelo governo para definir-se. Uma chamada à reflexão e discussão sobre uma classificação criada e utilizada pelo Estado, baseada em estudos arcaicos que acreditavam que características faciais de uma suposta raça geravam a propensão de cometer um crime. As pessoas que participam me mandam um retrato 3x4 com sua declaração, por exemplo, amarelo estudante de concurso público, café com leite ou qualquer interpretação de sua cor.»

A íntegra da minha entrevista com a artista carioca pode ser lida aqui.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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