arbitrário

música, cinema & cultura pop

Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain

Para corações fortes: 'The Woman' de Lucky Mckee

Estreado em 2011 no festival de Sundance, ‘The Woman’ conta a história de uma família de uma pequena cidade americana que rapta uma mulher selvagem num bosque e tenta domesticá-la a força. O filme causou muito barulho por onde passou e dividiu plateias, que acusaram-no de misógino e ultraviolento.


« (...) Como fã de Sam Peckinpah e Kubrick eu nunca quis fazer filmes que deixassem as pessoas indiferentes». Assim Lucky Mckee respondeu à pergunta de um dos presentes no final da projeção do seu último filme «The Woman», no encerramento do 25º Fantasy Film Festival o ano passado em Berlim. Podemos dizer, com toda segurança, que tudo o que este filme não causa nas pessoas é indiferença.

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Mckee ganhou um certo estatuto de culto no cinema independente (especialmente no circuito de terror) após o inesperado sucesso do seu début de 2002 «May». Não por acaso, a fantástica atriz que dava vida à garota perturbada do título, Angela Bettis, retorna a parceria com Mckee e faz a mãe passiva e perturbada em «The Woman».

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O filme conta a história de um pai de família, advogado bem-sucedido de uma pequena cidade que, um belo dia, por acidente, acaba por encontrar uma mulher selvagem no meio de uma floresta. Ele decide então levar a tal mulher (fabulosa - e lindíssima - Pollyanna McIntosh) para sua casa a fim de domesticá-la. Este é o ponto de partida que Mckee usa para contar uma história doentemente sádica, misógina e perturbadora, ultrapassando todos os limites do suportável e chocando plateias por onde passa. Há um famoso vídeo no YouTube (jogada de marketing ou não, ninguém sabe) onde um senhor arma um escândalo na premiere do festival de Sundance porque se sentiu extremamente ofendido com o filme. Numa das entrevistas de promoção do filme, a protagonista Pollyana McIntosh diz uma coisa muito curiosa a propósito das críticas e polêmicas que o filme tem gerado: que nós enxergamos muito mais violência do que o filme realmente mostra. E é este dispositivo narrativo, que nos manipula e nos choca com tanta brutalidade - sem que nos demos conta disso - um dos grandes trunfos de «The Woman».

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Contar mais detalhes do filme sem soltar alguns spoilers é praticamente impossível e, como disse o próprio diretor na tal entrevista, quanto menos se sabe do filme, maior é o prazer em descobrí-lo aos poucos. Eu não me chocava tanto assim com um filme desde que vi «Irreversível» do franco-argentino Gaspar Noé lá em 2002. Portanto, pouquíssimo recomendado para quem tem medo de emoções fortes.


Wellington Almeida

Paulista de nascimento e cigano de coração, mudou-se no Inverno de 2002 para a ensolarada capital portuguesa mas só em 2009 encontrou o seu "lar doce lar" em Berlim. Considera-se um misantropo full-time mas assume que tem muitos dias de Amélie Poulain.
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