ariane feijó

Em busca de pequenas grandes ideias.

Ariane Feijó

Etienne Lavie: o fotógrafo que sonha substituir outdoors por arte.

Um dos fenómenos artísticos mais recentes da arte digital é a intervenção virtual de Etienne Lavie nas cidades de Paris e Milão. Em OMG, who stole my ads?, o artista propõe um olhar diferente sobre as vivências da publicidade no contexto urbano, substituindo billboards por obras-primas da pintura ocidental.


Entrevista: Ariane Feijó e Clara Caldeira Texto: Ariane Feijó e Leonor Buescu

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A epidemia da propaganda consumista, que parece já estar profundamente incrustada nas nossas vidas, foi posta em perspectiva através do projecto virtual de Etienne Lavie – OMG, who stole my ads? 

Neste trabalho, com o recurso a programas informáticos de edição de imagens, Lavie utilizou algumas das mais famosas obras de pintura europeia de forma a tapar os anúncios inestéticos que bombardeiam uma das cidades mais emblemáticas do mundo – Paris.

 O sucesso no mundo online foi tal que o artista acabou por fazer o mesmo com Milão. Tive a oportunidade de conversar com Lavie para um trabalho desenvolvido em Portugal, e a sua visão sobre o mundo da arte x o consumo me encantou tanto, que precisei transformar em um artigo aqui. 

Como terá surgido a ideia de chamar a atenção para um problema actual de uma forma tão original? Ao que parece, há já uns anos que na cabeça de Etienne Lavie germinava o plano de confrontar as pessoas com os seus maiores vícios. O artista diz-nos que um dos grandes problemas da sociedade ocidental é o tempo e energia gastos em tentar atingir uma idealização do modo de viver que tem como base, muitas vezes, o desejo de posse e a impaciência dos consumidores.[leia o quote original] 

Lavie começou por imaginar diferentes abordagens da publicidade para que, assim, os anúncios sugerissem a paciência, a paixão, a satisfação, a curiosidade ou a tolerância. Desta forma, o objectivo principal do artista passou por perceber o que aconteceria caso a finalidade da propaganda fosse redireccionada para a transmissão de valores positivos.[leia o quote original] 

Foi então que lhe surgiram inúmeras imagens na cabeça que, aos poucos, começaram a formar uma ideia mais concreta. Lavie afirma que OMG, who stole my ads? se desenvolveu em torno dum desejo de transmitir mensagens universais através dos quadros sem que, no entanto, fosse empregue qualquer palavra. [leia o quote original]

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O fotógrafo falou também sobre o valor da sua obra, que assenta sobretudo na ideia de dignidade humana e de liberdade:          

“(…) My work is about freedom, and in a way dignity. Freedom of mind and behavior. And dignity, because what makes us human is patience, passion, dedication and openness of mind. It is an everyday fight. Art is one of the ways to walk on this path.” 

Para ele, a História da Arte tem um papel fundamental no seu dia-a-dia. Assim, defende como esta é uma disciplina essencial que nos ajuda a compreender e a desfrutar as nossas vidas. Continua dizendo que a arte é intrínseca à vida e que é, também, uma parte substancial do ser humano porque lhe confere dignidade.[leia o quote original] 

É neste ponto que, segundo ele, a publicidade nega essa qualidade: desta forma podem ser contextualizadas as intervenções nas cidades “virtualizadas” de Paris e Milão.

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Tendo em conta que a alternativa proposta por Lavie se realizou no “mundo online”, será que teria o mesmo impacto positivo no “mundo real”? Será que o artista gostaria de ver o seu trabalho efectivamente exposto nas ruas das cidades?  Mais do que um trabalho que tivesse a mesma dinâmica – a apropriação de obras feitas por outros artistas – Etienne Lavie diz-nos que gostaria de expor as suas próprias criações.

E justifica esta tomada de posição afirmando que servir-se do que os outros já fizeram representa uma militância, coisa que não procura. lavie 17.jpg

Acima de tudo, Lavie considera-se um artista que quer mostrar o seu próprio trabalho tanto nas ruas como em galerias de arte.[leia o quote original] O autor de OMG… fundamenta a selecção de obras-primas para este trabalho pelo interesse que nutre pelas pinturas de referência, do cânone artístico. No entanto, Etienne Lavie não desdenha a arte contemporânea, confessando-nos até a sua paixão pelas esculturas de Isaac Cordal. [leia o quote original] 

A escolha do enquadramento das pinturas no espaço é uma preocupação do artista e não um mero acaso. Assim nos explica como umas vezes começa por fotografar a cidade, indo depois à procura de uma peça que possa “contracenar” com a rua; outras vezes o método é inverso. O processo de construção de uma imagem decorre de um estudo por parte do artista para que resulte em algo marcante e com significado, de modo a tentar criar um diálogo entre a pintura e o espaço.[leia o quote original] 

Todos os dias somos confrontados por centenas de anúncios a produtos, a serviços e eventos. Tudo isto invade a nossa vida acabando muitas vezes por nos fazer acreditar que a nossa prioridade é um novo aspirador robótico ou um diferente e moderno automóvel. Foi nesta perspectiva que o francês Etienne Lavie ofereceu, em suporte digital, uma alternativa aos gigantescos cartazes publicitários que poluem as nossas cidades, substituindo-os por obras de arte. Um gesto bonito mas que é, acima de tudo, reflexivo.

[1] “This work has deep roots in me, years perhaps. So one day, in the evening, I had an epiphany about our accidental societies. So much time, energy and money are spent to push us toward a bad direction. (Eat ! Buy! Throw away and buy again! Don’t be satisfied! Why would you be? You are not even a top model.) Each ad is selling not just a car, a phone, or a jewel, but a whole way of life based on possession and impatience. (…)”

[2] “(…) I asked myself: “what if all the ads in the world were coaxing us to be patient, passionate, satisfied with what we have, deeply curious, tolerant, and eager to forgive others? And it’s about more than the ads being detrimental; it became about asking myself what would happen if that advertising energy were redirected into addressing our need for satisfying values. (…)”

[3] “(…) A whirlwind of images and pictures came to my mind. I was moved, a little transporté. I felt great, and I only had to start creating these images. Now that I have begun this work it is a great feeling, to tweak reality to a more suitable form. I could have written on the billboards : PATIENCE, PASSION, TOLERANCE, DEDICATION, FORGIVENESS. But putting masterpieces in the billboards is a universal way to send these messages. Because Art needs patience, dedication, openness, etc. So it is a way to project this message, with no word. (…)”

[4] “(…) Art is about dignity. Art is one of the things which provide human beings dignity. Art is totally part of my life. Art and art history helps us enjoying our lives and our environment. (…) Passion, patience, work, learning, trust, dialogue, and curiosity are part of the human fight for dignity. And Art require all of this value. (…)”

[5] “Yes I would love to see my work outdoors. But I mean my images, my composite images. Putting masterpieces on the billboards would be a militant act. I am not a militant, I am an artist. So I would loveone day to see my images (my composition) exposed in quite big format in the street or even in a gallery why not. (…)”

[6] “I just choose artwork which moves me. And I love classical paintings. For now, that is what moves me more. But I love contemporary art too. For example sculptures from Isaac Cordal are speaking directly to my hearth.”

[7] “(…) Sometimes I take a street picture, then go to the museum to find the best artwork to create a strong, interesting or moving image. Sometimes I take a picture of the masterpiece in a museum and then wait for the good street scene which will be the perfect setting to receive the artwork. My goal is to enhance the original painting. To make both images respond themselves.”


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