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Angelo Noel

Aqui tem alguma coisa do que a criação humana é capaz em
Texto, Imagem e Som.

Tudos.

Metal extremo é arte de vanguarda?!

Quando John Cage entrelaça seus braços com o Tinhoso, escreve letras ao gosto de Augusto dos Anjos e toca bateria a 190 batidas por minuto.


may08_dmodeblackmetalbarbies012.jpg Duas vanguardas culturais: Moda e Black Metal norueguês.

Sim, senhores. É vanguarda.

E com mais delongas:

Muito se fala e pouco é relevante sobre o gênero mais infame da música contemporânea.

O Metal extremo surgiu no início dos anos 80 e sendo muitas vezes de difícil delimitação, é amplamente conhecido como "metal pesado", "rock do demônio" e boa parte dos jovens já se deparou com o termo "Heavy Metal" de algum modo.

Mas isso ainda não é Metal extremo.

E eis aí o avanço:

O que era tido na cultura de massa e erudita como blasfêmia e "barulho de hospício", visão espelhada em bandas como Black Sabbath, Iron Maiden e Metallica, foi transformado em andamento presto-prestíssimo, com direito a distorção sonora e cacofonia, criando os subgêneros Grindcore, Death e Black Metal, todos em franca expansão e com afluências para a música eletrônica, e também para a virtuosidade instrumental vista no Technical Death Metal, ao qual a música atinge níveis de complexidade estrutural que podem ser consideradas diálogos da contemporaneidade com clássicos da virtuosi, Chopin e Rachmaninoff.

Sem estabelecer parâmetros qualitativos, obviamente, temos aqui as mesmas mudanças de mentalidade que definiram culturalmente os experimentos dodecafônicos de Schoenberg e a música concreta de Schaeffer no terreno musical e na adoção de temáticas antilíricas em conformidade com os Futuristas italianos e Cubofuturistas russos em seus manifestos verborrágicos.

NegligentCollateralCollapse-03-Feyn.jpg Os tchecos do N.C.C. e sua ode à Richard Feynman e aos avanços da nanotecnologia.

Temáticas estas que partem em sua maioria do viés anticristão que beira a infantilidade e vão até a filosofia existencialista e a física quântica, formando com a arte gráfica iconoclasta composta de cartoons e fotografias, um pacote que evoca também as pulsões de Éros e Tânatos em diversas facetas: imageria satanista, necrofilia, assassinatos seguidos de canibalismo, e etc.

A construção rítmica dá vazão à quebras abruptas de cadência, colaborando para uma noção mais tênue de tonalidade e atonalidade, inconscientemente em consonância (dissonante) com a improvisação livre proposta por Sun Ra e Cecil Taylor, mestres do Free Jazz.

A voz adquire ares de novo instrumento em urros e gritos, guturalidade distorcida com pedais de efeito alterando a frequência para escalas ainda mais baixas, exatamente como as guitarras, as quais geralmente recebem afinação em Dó, notação que lembra as sombrias trilhas sonoras de filmes de terror envoltas num manto de saturação que beira o noise japonês.

painkiller.jpg

Rompendo a monotonia do "cada vanguarda na sua quadra", a partir da década de 1990, ocorre uma mescla entre ritmos extremos com o avant-garde "tradicional", caso dos projetos Naked City e Painkiller, arquitetados pelo respeitadíssimo John Zorn, quando o Grindcore que ainda se construia como versão acelerada do punk rock, se funde com jazz bebop, country rock, reggae e dub (alô, Frank Zappa!).

A literatura acerca da música extrema se resume a apenas uma dúzia de livros sem traduções para o português, provavelmente, por sua configuração atual ter menos de 25 anos e ainda não gozar de prestígio popular e acadêmico. No que tange à classificação da variedade musical como vanguardista, este autor ignora a existência.

Cause for Effect: pancadaria frenética com teorias matemáticas.

O leitor, que presumo ter uma preconcepção sobre a exposição acima, pode desconhecer a preocupação de idosos septuagenários sobre o assunto, e corre sério risco de ser interpelado diariamente por questionamentos espantados, muita vezes em tom de indignação:

"Mas meu jovem, Metal extremo é arte de vanguarda?!"

Sim, senhores. É vanguarda.


Angelo Noel

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