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- depósito de signos: palavrimagem, som

Angelo Noel

Aqui tem alguma coisa do que a criação humana é capaz em
Texto, Imagem e Som.

Tudos.

Por que eu sou burro ou A literatura clássica na atualidade.

Desabando e desabafando sobre dificuldades literárias num post que está em aberto para alterações até que eu deixe de ser burro em Ezra Pound.
Para depois continuar a burrice em Shakespeare.


ezra-pound-american-poet-web4.jpg 'Cê é burro, heim?!', me diz Pound desdenhoso.

Peço desculpas de antemão ao estimado leitor pelo tom confessional e o pedantismo intelectual que compõem este artigo, porém, se é pelo bem da nação (leitora), digam que fi-lo (porque qui-lo).

Ocorre que há dois anos me deparo com uma muralha chinesa e ideográfica chamada "Os Cantos" do poeta, teórico da literatura e agitador cultural Ezra Pound, a qual não obtive êxito em transpor nem o primeiro tijolo (leia-se "apreensão e interpretação do conteúdo após o Prefácio").

Em 2010, adquiri a tradução do livro citado feita por José Lino Grünewald, em plena ciência de alguns fatos sobre o gigantesco poema divido em 120 "cantares":

- É um livro que gerou a criação de, no mínimo, outros quatro livros explicando letra por letra o conteúdo da obra, espécies de "Pound for Dummies", tamanho o nível de abstração e compenetração imperativos no desfrute da epopéia moderna.

- É considerado um dos maiores experimentos poéticos do século XX, em que Pound tenta condensar fragmentos de toda a história da cultura ocidental na perspectiva do eu-lírico, ou seja, a técnica de "fluxo de consciência" come solta de cabo a rabo, e para dificultar ainda mais o meu raciocínio mancebo, contém referências históricas pontualíssimas. Não bastasse isso e uma c*ralhada (com o perdão da licença antipoética) de mais de 800 páginas, o aventureiro precisa ter intimidade com simplesmente: chinês, grego, italiano, alemão, latim e também francês, pois estes idiomas foram essenciais na construção da civilização do lado esquerdo.

- Os irmãos Campos, Décio Pignatari e Mauro Fastino foram responsáveis por traduções de alguns trechos em uma coletânia chamada "Poesia - Ezra Pound" e o diretor de teatro e apresentador Antônio Abujamra já ficou hospedado na casa do mestre. Eu, sem nenhuma formação sólida na arte literária, não atinjo 10% da sapiência de qualquer um deles, dessa forma, me falta muita sopa de letrinha até incorporar a mente de Pound.

James Joyce.jpg 'Talvez o livro do filme Piratas do Caribe você entenda', me aconselha o doce Joyce.

Isto posto, cheguei até aos seguintes questionamentos, após dezenas de concatenações dentro de coletivos do transporte público, que por sinal é onde se deu parte considerável da minha baixa instrução no mundo das letras:

- Vale a pena o homem contemporâneo se aprofundar em universos tão longínquos no tempo, que acabam sendo apenas excertos irrisórios da realidade transformados em papiro, com transcritos filtrados pelo limite do conhecimento, sujeito a erros, e sobretudo, se o leitor não goza de bons níveis de erudição?

- Quem é o culpado nessa história? Ezra Pound que é hermético ou eu que sou burro e despreparado?

'miiiinha nossa! vai ser burro assim lá na China dos ideogramas'.jpg 'Miiiiiinha nossa! Vai ser burro assim lá na China dos ideogramas!'

À primeira indagação, respondi para minha faceta Voltairiana que eis aí uma ótima justificativa para prosseguir com a jornada de aprendizagem, porquê sim, vale a pena navegar pelo oceano do sublime e universal.

Assim como pessoas velhas não deixam de ser pessoas, os grandes escritores clássicos abarcam ideias e conceitos que são limítrofes na grande experiência humana.

Não importa se você trabalha fazendo espada pra guerra medieval ou gosta de ouvir Merzbow no Ipod, a prosa e poesia dos deuses são atemporais e tratam de assuntos que estão no âmago de qualquer homo sapiens que já pisou nesse planeta lindo de morrer.

São chamados de clássicos por suas capacidades de investigar o Obvious ou o "punti luminosi" num emaranhado de informações randômicas, interpretar, perfumar e embelezar tais ideias e depois transmitir tudo aos seus pares, pois "os artistas são as antenas da raça", conforme o velho Ezra dizia.

Também é interessante considerar que mesmo sem tempo disponível para ler as quase 3.500 páginas distribuídas em 7 volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust, ou que não se siga carreira profissional no multiverso linguístico, os entusiastas do ócio meditativo precisam, impreterivelmente, de altas doses de cultura para que a arte da contemplação ou o saber por saber, seja melhor aproveitado, fazendo surgir cada vez mais universos paralelos.

No que tange à segunda pergunta, não tem como Hermann Hesse ou Boccaccio estarem equivocados ou "errarem a mão" na tessitura de suas respectivas opus magnum. As qualidades de suas produções já são consideradas leis da física.

Eu é que sou burro. Sem falsa modéstia, claramente.

'Ah! quer dizer que o bebezão não entendeu_ BURRO!'.jpg 'Ahhh! Quer dizer que o bebezão não entendeu... BURRO!'

Injustiça de minha parte seria culpar o ensino público ao qual fui "vítima", pois apesar de no Brasil ser evidente o total interesse dos burocratas em manter currículos escolares ideológicos e excluir o aprimoramento individual dos educandos, existem terceiras vias como a rede mundial de computadores, o melhoramento e barateamento do mercado editorial e os fins de semana que estão aí, esperando gente como a gente, que quer subir na vida acadêmica ou vencer a ignorância na base da força do pensamento. Fatores que de certa forma também se configuram em outra motivação para que eu desenvolva ainda mais minhas habilidades cognitivas. Fica aqui, então, meu singelo apelo:

Se você não é burro e entende essa cantoria do Pound, peço humildemente sua ajuda com explicações, dicas em ensaios sobre obra em língua-mater e demais truques, visando após a total assimilação do livro, confeccionar camisas com os dizeres: "Finalmente entendi Pound, e vc?" .

Mas se você também é burro em Pound, Homero, Ovídio, Dante, Goethe, Camões, Joyce e outros classudos, deixe seu honesto comentário e vamos nos apoiar na descoberta da saída desses labirintos de signos e significados literários.

Todos juntos na tentativa de tornar nossos cérebros um mundo melhor para se viver!

Enfim, pretendo armazenar o conteúdo deste post para que em um futuro muitíssimo distante, eu possa ler, absorver e processar o quase 1,5 kg. da escrita Poundiana e me orgulhar de dizer para meus alunos de doutorado em Letras:

- "Então, cabeças (mais ainda) sedentas por conhecimento, vamos fazer uma análise de discurso do Canto XXXIV."

Eu só não quero é que me perguntem sobre Stendhal...


Angelo Noel

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