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Angelo Noel

Aqui tem alguma coisa do que a criação humana é capaz em
Texto, Imagem e Som.

Tudos.

Notas sobre as UPPs: Unidades Poéticas na Publicidade.

Alguns casos em que poeta, rima e uma garrafa de refrigerante levam fruição estética ao cotidiano.


pessoa e a coca-cola.jpg

Publicidade não é arte.

Apesar do uso de códigos linguísticos e figurativos próprios dessa manifestação estética, a Publicidade está inserida no que é convencionalmente chamado “composto de Marketing”, que por sua vez, visa criar um ambiente propício para trocas voluntárias (comércio).

Publicidade, portanto, é negócio.

sol.gif "Sol de Maiakovski" - Augusto de Campos

Entretanto, como toda comunicação superficial, a qual não pode haver relação de dominação entre emissor e receptor, respectivamente empresa e cliente, a Publicidade imprescinde do poder de persuasão para atingir a maior quantidade de pessoas possíveis almejando uma resposta positiva ao estímulo da mensagem, na forma de aquisição do produto ou serviço anunciado.

E a poesia, lírica ou concreta, desempenha papel de ferramenta suasória no discurso publicitário, ainda que apenas em uma ponte aérea para sua estrutura.

pinto.jpg Anúncio do português Ramos Pinto, que usou o serviço de algum literato na composição destes versos.

A interação das duas comunicações, sobretudo no Brasil, gerou uma relevante exposição do homem comum à forma poética (a possível linguagem de nossos ancestrais ao descrever fenómenos naturais) ao longo da existência da Publicidade, com poetas como Olavo Bilac redigindo texto em rima interpolada (A-B-B-A) para uma marca de caixas de fósforos:

“Aviso a quem é fumante Tanto o Príncipe de Gales Como o Dr. Campo Salles Usam fósforo brilhante.”

O “Mad Men” da Rússia Soviética, Vladimir Maiakovski, juntamente com seu amigo e designer gráfico Alexander Rodchenko, desenvolveu uma série de cartazes tipicamente Construtivistas para a estatal russa de alimentos agrícolas na década de 1920, utilizando como slogan (grito de guerra comercial que demanda a síntese dos haicais japoneses):

“Em nenhum outro lugar além da Mosselprom!”, que permanece na cultura popular até os dias atuais (tradução livre).

Rodchenko-Mayakovsky-4-1-copy.jpg Maiakovski e Rodchenko: vanguarda na arte e publicidade.

Fernando Pessoa, que também colaborava com artigos em uma revista de propaganda, foi responsável pela criação do slogan que introduzia a Coca-Cola em Portugal no ano de 1928: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, uma paronímia que sucintamente explicita a vantagem comparativa do produto.

Até Augusto dos Anjos (!) contribuiu com sua letra para anúncios, obviamente, sem a verve pessimista e o simbolismo erudito que o consagraram na poesia brasileira, mesmo assim, empregando um quarteto característico de seus sonetos:

“Nesta cidade onde o atraso Lembra uma cara morfética Fez monopólio da estética A Loja do Rattacaso”.

Bastos Tigres, figura de destaque na propaganda brasileira e criador do slogan aliterativo “Se é Bayer é bom”, também era vate e deixou alguns versos em que a métrica de rima pobre, auxilia no processo de assimilação do produto:

“O Brahma Chopp em garrafa, Querido em todo Brasil, Corre longe, a banca abafa, Igualzinho o de barril.”

O Concretista Décio Pignatari, que além do exercício da Publicidade, foi de alta relevância para o ensino de comunicação no Brasil realizando traduções e também teorizando, cunhou o termo “anti-propaganda”, um exercício de metalinguagem que sabota a própria tentativa de estabelecer empatia com o público-alvo. O poema já consagrado "Beba Coca-Cola" de 1957, exemplifica:

beba.gif

A lista de engenheiros da palavra que colaboraram com a Publicidade é extensa e passa por nomes como Paulo Leminski, o praxista Mário Chamie, Casimiro de Abreu, os modernistas Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia, e etc.

Por fim, é importante ressaltar que não é possível tratar de metafísica em forma de verso livre enquanto se vende sabão em pó, mas a interatividade gerada a partir da apropriação de expedientes poéticos pela Publicidade, permite mesmo que em condição fragmentária, que o homo consumericus dentro de sua rotina apressada e sem espaço para contemplação entre em contato com o sublime e o belo.


Angelo Noel

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