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Angelo Noel

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Tudos.

Caveh Zahedi e sua verdade em película

Woody Allen pode parecer apenas um mero emulador de si mesmo se comparado ao cinema realista e autorreferencial de Caveh Zahedi.


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Caveh Zahedi é um cineasta como poucos.

O diretor, roteirista e professor de cinema de origem iraniana gosta de cogumelos alucinógenos, já foi cliente de um número incontável de garotas de programa e fez seu próprio pai com problemas cardíacos experimentar ecstasy.

Tudo isso está perfeitamente registrado em sua filmografia.

CavehWillQuartet1.jpg Stills e alucinações de "Tripping with Caveh" com o cantor Bonnie Prince Billy.

Taxado de narcisista por boa parte dos entendidos da 7ª arte, seu cinema confessional pode ser classificado também como documentário de ordem pessoal e é plausível arriscar até que seria uma espécie de cinema vérité individualista.

A velha dicotomia realidade versus ficção deixa de existir com o diretor.

Caveh Zahedi é e vive seus próprios filmes.

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Seu primeiro, “A Little Stiff” de 1991, recria um pedaço de sua história durante a faculdade, quando se apaixonou neuroticamente por uma aluna do curso de artes e não obteve sucesso na empreitada amorosa.

Caveh interpreta ele mesmo e todos os outros atores são as mesmas pessoas que estiveram envolvidas no acontecimento.

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Em “I Don’t Hate Las Vegas Anymore”, tenta provar para o irmão e o pai que Deus é real, deixando sua câmera ser guiada pela mão divina em uma viagem de sua cidade até Las Vegas, onde ao chegar, consegue após horas de tentativas para convencer seu genitor, que sofre de distúrbios cardiovasculares juntamente com seu meio-irmão, relutante ao uso de drogas, a consumir comprimidos de ecstasy (famoso por sua sensação de “comunhão celestial”) visando estreitar sua relação com os dois que sempre foi conturbada.

Tudo corre bem durante a experiência, contudo, no dia posterior, tudo volta ao que era ontem, ainda com seu pai e meio-irmão em resistência aos afetos de Zahedi.

Talvez essa tenha sido a mão de Deus dirigindo seu filme.

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O sugestivo título “I’m a Sex Addict” de seu filme lançado em 2005, postergado em 15 anos devido a dificuldades de financiamento, trata de seu problema com emoções reprimidas que acabavam sendo compensadas com o serviço de prostitutas, fato que ocasionou a ruína de alguns relacionamentos amorosos.

Ao longo da fita, a pessoa que se confunde com o ator, projeta sua recuperação culminada em seu casamento que perdura até hoje com Amanda Field, também parte de "In the Bathtub of the World", filmando a rotina do casal em todos os dias de 1999.

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A genialidade de Caveh não está só em reprisar fragmentos de sua vida pessoal, brincando com a consciência da efemeridade do Ser, conforme André Bazin em seus estudos sobre ontologia da imagem, mas também reside na sinceridade com a qual ele se expõe ao outro humano que o observa, exibindo sua fortuna e igualmente sua baixeza espiritual, como todos que cá estão inseridos nessa viagem sem prazo final definido.

tumblr_mcdo92W5Gx1qzizw7o1_500.jpg Participação no filme "Waking Life", também interpretando ele mesmo.

Caveh Zahedi que passou a ter mais prestígio no mercado cinematográfico a partir da década de 2000, ainda encontra muitos narizes torcidos na crítica, que enxergam sua arte como apenas “diários em filme” de sua rotina, mas apesar dos pesares está preparando um filme curiosamente intitulado “O Filme” que será lançado ainda no ano de 2013.

Seja qual for o rótulo da academia ou dos profissionais da opinião, há de se considerar que seus filmes são retratos à flor da pele sobre como um único indivíduo pode abarcar complexidade e simplicidade simultaneamente.

Vida e obra, homem e filme se tornam um só.

Mesmo sem um final feliz, a vida como ela é.


Angelo Noel

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