arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

REALIDADES REVISTAS

Portugal: Lisboa, Porto e tantas outras cidades trazem a lembrança de que é ainda possível se viver com qualidade e preservação, com sociabilidade e amizade!


Images photos espagne 043.jpg Sempre quando se conhece um novo país, a expectativa sobre o que se pode ver por ali é muito grande. Um misto de ansiedade por confirmar aquilo o que se pesquisou antes de viajar, uma possível identificação com o lugar, como se virar ante a novos costumes e língua... ah, mas um momento, estamos falando de Portugal!

Sim, estamos. Um país que tradicionalmente acolhe muito bem os brasileiros por toda a história que envolve os dois países etc, a língua é igual... bem, não é exatamente assim. De qualquer forma, falar sobre um país como Portugal exigiria muitos capítulos, uma resenha básica sobre sua história e como ela se interrelaciona com a do Brasil, mas deixemos isso para os historiadores e sociólogos, a conversa aqui é outra!

Do alto fica muito fácil de se identificar Lisboa numa geografia bem particular, predominantemente plana e recortada pelo seu lindo rio Tejo, e uma grande massa urbanizada, aliás várias delas – facilmente reconhecemos uma cidade moderna e com plano urbanístico claro. E é exatamente aí onde se tem apenas um arremedo do que realmente é a cidade. Images photos espagne 057.jpg E aí, já no mesmo plano da cidade, Lisboa começa a se revelar pela clareza de suas amplas avenidas, o como elas se integram às áreas mais tradicionais e históricas. E aí, a primeira grata surpresa.

Uma área não compete com a outra, cada qual tem a sua identidade e charmes próprios, e dessa forma vivem harmoniosamente. Passa-se de um registro e área histórica de uma forma muito tranquila, mergulha-se no passado com muita eloquência, e a volta ao moderno se dá de forma a lembrar que você está no século XXI. Não por uma abrupta modernidade em si, traduzida por edifícios megalomaníacos, mas pela clareza de como se preserva a história. Entendo que a melhor forma de se conhecer uma cidade ou país é efetivamente andar por suas ruas e becos, caminhar quase que à exaustão conhecendo seus cafés, lojas e restaurantes. Images photos espagne 198.jpg É um encanto, verdadeiro deleite, conhecer por exemplo as ruas do bairro do Chiado. Exímias construções seculares a emoldurar suas ruas sinuosas, a boemia comportada das manhãs sugerindo uma rica vida noturna e cultural. A arquitetura enche os olhos do mais desavisado andarilho, os focos e enfoques necessariamente passam por um olhar mais apurado. Simplesmente não há como não se deparar à magnitude do design de fachadas arrebatadoras e muito bem conservadas, traço característico dessa cidade.

Até no bonde, um dos símbolos desta cidade, se tem um belo resgate visual e charme do locomover por ali. Não dá sequer para reclamar de um céu em contraste com a rede elétrica aérea destes bondes... Images photos espagne 202.jpg Lisboa é sem dúvidas cosmopolita, mas também tradicional. É moderna, mas também provinciana. E são justamente essas duas cidades que convivem, se delimitam, mas que se mesclam ao mesmo tempo, e moldem talvez um dos grandes segredos da forma lisboeta de ser.

O povo português, extremamente cálido, gentil e por demais simpático faz com que se sinta em casa. E olha que não tenho qualquer traço de descendência portuguesa, minha família é a primeira geração no Brasil. Mas o que será que afinal nos cativa tanto estar por aqui?

Demorei a juntar e decifrar os elementos que me faziam parecer tão familiares este clima e comportamentos, e acho que ao menos cheguei a uma conclusão pessoal. Entendi... percebi... me lembrei! IMG_6974.JPG Não foi uma situação específica, mas o conjunto delas. Não foi memória falada ou contada, mas eu tinha a certeza de que sabia que já havia sentido aquilo... bingo!

Portugal me fez relembrar de algo não mensurável, de algo que fica no campo das sensações, mas eu tinha certeza de que sabia que aquilo era algo conhecido. E lembrei. IMG_6166.JPG Portugal me fez sentir menino, criança... me fez relembrar de sensações que eu já não acreditava mais serem possíveis. Me lembrei do Brasil que vivi quando criança, um Brasil de cordialidade e educação, de segurança e civilidade. Uma realidade que o Brasil vivenciou por alguns anos, onde buscava espelho justamente em países europeus. Contribuição dos muitos imigrantes que vieram, de governos que buscavam as referências européias, enfim... IMG_6176.JPG Portugal me devolveu de forma mágica as convicções de uma realidade possível, de um Brasil que no passado 'beliscou' esta realidade, e que hoje não mais a temos em nossas grandes metrópoles, talvez até no Brasil como um todo. Eu vivi aquilo, longe da fantasia de uma criança, e senti que é realidade ainda para alguns. Crises à parte, Portugal não perdeu a referência do bem viver.


Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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