arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

João Walter Toscano, o adeus a um dos últimos grandes arquitetos modernistas

Arquitetura do aço, modernismo, grandes arquitetos faziam a diferença no cenário nacional e humano.


Quando iniciei meus estudos acadêmicos, não conhecia o nome de João Walter Toscano. Estava à volta com nomes 'clássicos' como Wright, Niemeyer, Aalto e tantos outros que também admiro, mas confesso que minha ignorância à época seria compreensivamente repreensível. E eis que justamente me foi proposto o estudo de caso da Estação Largo 13 da CPTM (rebatizada atualmente para Estação Sto Amaro). 1T.jpg O traço conceitual, croqui da Estação do Largo 13, João W. Toscano

Por conta de conhecimentos em comum, tive a oportunidade de entrevistá-lo e enriquecer o trabalho de então, o que me causou grande expectativa. Preparei a 'entrevista' o máximo possível, e ainda assim não seria suficiente... e sequer necessário!

2T.jpg A arte, 1985, e o fétido rio Pinheiros

Toscano se mostrou um cara afável, mais do que solícito e simpático, e a conversa não poderia ter sido melhor, foi um verdadeiro bate-papo técnico e também informal, enfim uma aula de arquitetura, onde conversamos sobre vários aspectos. Expôs sua admiração e entusiasmo por Mies Van De Rohe, do qual seguramente buscou inspiração.

3T.jpg O relógio no acesso, como marco memorial

Essas formas brutas porém poéticas, aliadas à de Calder, grande escultor em aço que seguramente se orgulharia de sua obra, poderiam facilmente explicar estas influências, basta apenas olhar e vivenciar sua obra. Foi seu primeiro trabalho com o aço, oportunidade concedida pela então FEPASA com apoio logístico e técnico com a COSIPA, concebeu o que é hoje uma grande referência internacional em arquitetura em aço. Em conjunto com sua esposa Odiléa, também arquiteta, fez a concepção cromática deste belo trabalho, compondo com o aspecto rústico do aço COS-A-COR da magistral estrutura, onde as linhas curvas suavizam a brutalidade do material.

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Suas magníficas obras não se restringiram a este grande trabalho de destaque, aliás começou como todos grandes arquitetos modernistas de sua época, no brutalismo poético do concreto armado.

6T.jpg Balneário de Águas da Prata/SP, 1971

O balneário de Águas da Prata inspirou-me naquela proposição acadêmica, quando inclusive remeti a ele meus primeiros croquis, como forma de agradecimento e admiração.

Admiração essa ante a um ser humano, que inclusive quase chorou quando eu havia constatado que a atual estação de metrô, homônima da rebatizada estação com sua ponte estaiada, praticamente 'atropelou' sua obra na necessária integração com o sistema, ofuscando parcialmente sua obra de arte. Foi a constatação de quem prezava pela sua obra no pós-ocupacional, de alguém que zelava também pela manutenção da paisagem urbana. Poética obra ao lado de um pútrido rio.

Este texto, que redigi há cerca de dois anos quando Toscano se foi, tratou-se apenas um reconhecimento, e agradecimento ao grande trabalho deste renomado arquiteto e pessoa humana. Muito mais informações poderão ser encontradas em livros especializados e em compêndio de sua própria autoria.

NDR: as fotos deste texto foram retiradas de seu livro autoral, e de seleções ao longo de anos, às quais cometo a indelicadeza da falta na menção. Todas as fotos que possuía se perderam em uma pane de computador anos atrás. No entanto, mantive intacta a entrevista que mencionei gravada numa fita cassete, com muito carinho!


Edgard Georges

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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