arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

São Paulo, cidade desigual, 460 anos...parabéns?

Viver na cidade, ufanismo ou urbanismo, como elemento de integração e igualdade? A São Paulo midiática.


É sempre assim, a cada 25 de janeiro temos continuamente o mesmo tipo de manifestações ufanistas (cegas, ao meu ver) a respeito desta cidade onde moro, São Paulo, que hoje 'comemora' 460 anos.

saopaulo.zapimoveis1.jpg Verdade ou ilusão? É o verde invadindo São Paulo, ou na verdade o expulsando?

Como cidadão desta metrópole, inclusive nascido paulistano, não posso ignorar que, ano após ano as manifestações midiáticas forcem esse sentimento de amor aparentemente incondicional. Escolhem-se símbolos, Avenida Paulista... maravilhosa por sinal. No entanto, elas representam de fato o que é a cidade, ou de fato aquilo que gostaríamos de ver de forma mais homogênea em toda ela?

Os contrastes são imensos, de norte a sul e de leste a oeste, passando pelo magnífico e deteriorado centro antigo. Como então, evocar essa paixão por uma cidade que privilegia a muito poucos?

trianon.jpg Parque Trianon, uma das poucas ilhas verdes em São Paulo - foto de Ivan Dias

É certo que ela abriga gente de muitos lugares, seja do Brasil como de tantos outros países, e que realmente trás oportunidades para povos dos mais diferentes lugares. Gente que vem de países em guerra, de outros que passam por crises econômicas e por aí vai... a maravilhosa vocação brasileira de abrigar os estrangeiros, a velha e conhecida “síndrome de colonizado”, que trás esse aspecto positivo do bem receber. Mas, aqui a estou elogiando, certo?

sala_sp_osesp.jpg Centro antigo, maravilhosos marcos arquitetônicos e culturais: São Paulo hoje é uma colcha de retalhos urbanos, e desumanos

Sim... apenas não se pode voltar as costas à uma cidade desigual, desumana para muitos. Áreas concretadas abundam, fazendo da cidade uma ilha de calor quase insuportável em dias de verão como os atuais. Mais uma vez, contrastes se mostram pelos extremos cardeais na cidade.

cidades1.jpg Cidade desigual, desumana - foto de Lalo de Almeida

Afinal, qual o interesse em se evocar esse sentimento, irreal de forma geral?

Acredito num enorme esforço midiático que tenta funcionar como um “sonrisal” que visa tentar promover um virtual alívio psicológico de quem sofre para se manter vivo nessa cidade desigual, onde a maioria perdem horas no transporte interno pela metrópole, ou se degladiam ante às oportunidades de trabalho com remuneração injusta... Nossa, agora só estou falando mal da cidade?

Longe de imaginar um mundo perfeito ou ilusório, momentos como o aniversário da cidade melhor serviriam se fossem utilizados para a reflexão quanto ao como se dão essas desigualdades, e qual poderiam ser as soluções efetivas. E, consequentemente, quais seriam os melhores caminhos democráticos para se buscar políticos comprometidos com a verdade e a correta administração pública, e também menos midiática!

São Paulo deveria ser um exemplo no exercício do viver urbano, tamanha suas dimensões e complexidades. Eu seria hipócrita se refutasse o tudo de bom que ela tem, procuro me valer de seu lado bom, mas sempre costumo dizer que paga-se um preço muito alto por isso. Quem não reconhece isso, está na verdade virando as costas à realidade ampla que agracia e assola seus habitantes.

sao-paulo42.jpg A São Paulo que todos queríamos: urbanizada, equilibrada, verde, cultura e arquitetura, em todos os rincões desta cidade!

Ainda assim, um feliz aniversário São Paulo! Se não para ti, tão injusta quanto fantástica para alguns, os meus parabéns vão de encontro àqueles que vivem aqui, paulistanos ou não, que dão aulas de convivência e civilidade na metrópole... outra vez, os parabéns são para todos os que exercem de fato a civilidade no viver.


Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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