arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

Barbosa, o retrato ainda atual de um Brasil injusto

Heróis e vilões, o futebol como válvula de escape das frustrações cotidianas, injustiça e hipocrisia da sociedade


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A Copa do Mundo de futebol passa a ser uma realidade a partir de junho no Brasil, em meio a protestos de toda ordem, alguns justos e atemporais, e outros tantos oportunistas.

A despeito de obras super faturadas, da arquitetura duvidosa e de algumas até interessantes, má organização e infraestrutura insuficientes, a tendência natural e histórica é de que o engajamento em torno do escrete nacional aumente à medida que se aproxime e aconteça o primeiro jogo. Mas o povo esquece tudo... rapidamente.

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Barbosa. Ignorado, esquecido, desprezado. Humilhado.

A sociedade tem facetas assombrosas, que insistem em comportamentos como a alienação, imediatismo, oportunismo, transferência de responsabilidades. As pessoas erram e não aprendem com seus erros, ela os terceiriza. Conveniente ou inconsciente?

O insucesso apocalíptico da final no Mundial de 1950 não poderia ser assumido pela presunção de um povo e imprensa que já cantavam vitória antes do jogo final, tampouco e principalmente pela seleção da época.

Sempre me incomodou a capacidade desta sociedade em demonizar suas próprias frustrações, e em especial ao que sempre fizeram com Barbosa. Escolheram um Judas para tal, um goleiro, posição que de tão ingrata faz “a grama não crescer sob a sua meta”. É o lugar para onde vão os jogadores menos habilidosos, aqueles geralmente rejeitados, não? É o que acontece na maioria das vezes, creio, nos antigos e hoje desaparecidos campinhos de várzea.

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Barbosa. Negro, injustiçado, ante a uma sociedade que acreditou que a goleada contra a Espanha seria o passaporte definitivo ao título. Presunções. Arrogância?

E o que Barbosa queria era apenas a redenção de uma culpa que não era dele, queria também dividir essa tristeza com todos, se explicar... ter um pouco de carinho, até.

Foi expulso da concentração do selecionado brasileiro em 1993, pelo então técnico Parreira e seu auxiliar Zagallo, sob o argumento de trazer azar... como não se bastasse todo o sofrimento de décadas!

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Somos a "pátria de chuteiras" ou a pátria de esporas? Somos verde e amarelo, ou apenas de tons cinzentos? Assim caminha a sociedade, amando, esmagando e esquecendo seus ídolos, que passam a ser vilões num piscar de olhos, assim como o gol de Ghiggia fez com Barbosa.

Barbosa, um ser humano como qualquer outro com anseios e sentimentos, carregou durante 50 anos até a sua morte o peso da culpa pela derrota do Brasil ante ao grande time do Uruguai da época. Morreu pobre, sozinho, precisando de ajuda. Mas claro, não foi todo um time que falhou, uma seleção que afinal fez apenas um gol, e que teve a incompetência de não fazer mais. Um time inteiro tomou a virada por 2 x 1. O culpado?

Ghiggia. Sim, Ghiggia... afinal, foi ele o responsável, e não toda uma sociedade injusta que não se assume, e hipocritamente não reconhece as próprias falhas. Ou mesmo projeta demasiadamente suas frustrações em terceiros.

À Barbosa... luz e cor, alegria e alívio, reconhecimento e compaixão.

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Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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