arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

O êxodo urbano e o ideal de viver com qualidade

Qualidade de vida nas cidades, metrópoles ou não. Viver e questionar o modo de vida.


Exodo1.jpg "Eu quero uma casa no campo"...

O ideal de viver uma vida de forma mais natural, deixando o estresse de uma grande metrópole, buscar viver numa cidade menor e num ritmo mais humano, tem se mostrado com uma opção cada vez mais atual por quem preza a qualidade de vida.

A visão romântica de uma melhor qualidade de vida passa por uma obrigatória e lúcida análise a respeito de algo fundamental, uma questão que devemos nos formular: o que de fato eu quero para a minha vida, o que de fato é importante para mim?

Todas as qualidades que um grande centro costuma ter, como equipamentos culturais, vida noturna e gastronômica, que são extremamente bem vindos e apreciados, tem, por exemplo, um custo que vai além de seu valor intrínseco: há que se chegar até eles. E de que forma isso pode-se dar?

Exodo2 nelson Kon.jpg Praça das Artes, São Paulo - foto de Nelson Kon

Uma integração dos modais numa grande cidade, razoavelmente equilibrada, pressupõe transporte público de qualidade e em quantidade, formando uma rede de fato a atender grandes demandas internas que poderia gerar a interação de toda a população de uma cidade, proporcionando um potencial intercâmbio cultural. Não é o que acontece, ao menos de forma mais ampla.

Sendo assim, esta análise segue devendo ser objetiva daquilo que pretendo encontrar no novo local, qual infraestrutura terei ali, qual similaridade de serviços guarda a nova cidade com a que estou deixando, e de que estou disposto a abrir mão.

Desenvolver um ritmo mais solto, “lento”, onde se preza o abandono da ansiedade pela urgência que impera nos grandes centros, estar disposto a vivenciar o que poderíamos chamar de certa 'lentidão' nos serviços (talvez o normal esperado, diferente do imediatismo da metrópole), seja o tom principal a ser considerado. Posso abrir mão de tudo o que a grande cidade oferece, me contentarei com atividades culturais menos plurais, mais regionais, mais espaçadas?

o-maior-espaco-da-mostra-com-3665-m-a-praca-das-jabuticabeiras-da-paisagista-paula-magaldi-e-um-grande-jardim-de-interior-inspirado-nas-pequenas-cidades-da-italia-e-franca-com-1340051387460_750x500.jpg "Praça das Jabuticabeiras", espaço criado por Paula Magaldi para a 26ª Casa Cor SP - foto, Katia Kuwabara/ UOL

As vantagens também são óbvias, facilmente apreciáveis: muito provavelmente estarei trocando um apartamento, exíguo ou não, por uma casa, dada a abundância de espaços que aparecem tão logo se deixa o perímetro dos grandes centros. E aí a qualidade de vida se expressa na nova relação que se tem quando se abre a porta de casa e já se está na rua. A sensação de pertencer a um lugar tende a reaparecer, já que as relações com as pessoas passam a ser mais diretas, não?

Claro que também não há idealidades em cidades de interior, mas os apectos positivos devem ser considerados, sempre compondo a 'balança decisória' nos prós e contras.

Agora também temos um novo elemento a ser considerado, ao menos aqui em São Paulo, que é a falta d'água. O cenário que se apresenta é sombrio, e basicamente tudo decorre da falta de planejamento urbano e gestão dos recursos hídricos. Sem água não se vive, e uma absurda concentração urbana como temos nesta cidade não ajuda em nada, aliás, determina tendências nada animadoras.

aquifero_500.jpg Aquífero Guarani: reserva mais do que garantida, ante ao desperdício do uso da água nas cidades. Até quando?

Sempre se esperou que, num país de dimensões continentais como o Brasil que tem a água em abundância, não pudesse sequer se cogitar a falta da mesma, inviabilizando a ocupação dos espaços urbanos. Aquilo que sempre se esperou de órgãos governamentais, que é o desenvolvimento homogêneo e equilibrado de um país como um todo (e o país começa nas cidades e estados) pode acontecer, de forma lenta, a partir desse aparente esboço de êxodo urbano. Afinal, já que o estado não o faz, eu me mudo e começo a fazer... claro que com muitas dificuldades, pois é um movimento migratório ainda pequeno, de iniciativas individuais e que depende bastante de condições econômicas.

varanda1.jpg "Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, para ver o sol nascer"...

Com isso, qualquer decisão neste sentido deverá sempre considerar o desequilíbrio entre as cidades brasileiras, a auto capacidade de abrir mão de reconhecidos confortos urbanos e infraestrutura, para as vantagens reais de qualidade de vida. E esta qualidade de vida, formada por aspectos concretos e também subjetivos, somente cada um poderá aquilatar o que é melhor para si.

Não podemos nos iludir com cenários perfeitos, o Brasil estruturalmente é desigual. As considerações neste sentido devem ter a análise crítica, onde lógica e objetividade devem permear decisões assim. Sempre será algo muito saudável e louvável, pois é o modo de se viver que está sendo posto à prova.


Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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