arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas na realidade como única salvação urbana

O Brasil nunca foi Bossa, mas flertou com a Tropicália...

A história e a música, marcando o compasso e descompasso de um claudicante país


Maiores-Idolos-da-Bossa-Nova-5.jpg O Brasil nunca foi Bossa...

Estamos em pleno século XXI, e... e o quê?

Quando se começa uma frase como essa, tem-se a tendência de invocarmos coisas novas, modernidades, evolução dos costumes, cura de doenças devastadoras, tecnologias... enfim, sempre pensamos em melhorias em nossa vida cotidiana, tendemos a ser otimistas. O Brasil dos anos 1950/60, amparado pela ascenção do primeiro campeonato mundial de futebol, pelo início da construção de Brasília e por movimentos como a Bossa Nova, principalmente, passava a ideia de ser um país maravilhoso, de gente de bem com a vida, de um país sem problemas. Mesmo?

Já escrevi anteriormente a respeito do que chamei de "o país da intolerância", na contramão do que sempre se apregoou.

No entanto hoje vivemos tempos muito sombrios, os retrocessos sociais são muito fortes, a tensão vivida no país é grande, e isso não se restringe apenas ao Brasil, como já conhecidos retrocessos em países chamados de "primeiro mundo". "O problema é deles", certo? Sim e não, afinal tudo reverbera de uma forma ou de outra: vivemos na mesma 'esfera achatada'.

bossa_leitura_dabossa.jpg A passagem?

Quando se constata apoio enfático a caras de posições extremas, neste caso da dita "direita", daí não ficam dúvidas de como estas pessoas pensam, e possivelmente ajam. Entendo que todos mereçam respeito como seres humanos, desde que estas ideias fiquem no campo dos pensamentos em si. Mas quando estes mesmos pensamentos segregacionistas extrapolam este limite, e isto passa ao campo do ódio prático com suas nefastas ações, jamais!!!

Pesquisas de opinião amparam o sentimento de que não são poucos, estima-se hoje de que cerca de 13 milhões de brasileiros votariam numa pessoa assim. Então, como é que fica a apregoada "terra da tolerância"?

Na Holanda um candidato deste naipe foi derrotado, o que nos mostra uma nesga de esperança, mas ao mesmo tempo não se pode esconder que há uma parcela expressiva da população que talvez pense tão igual como os 13 milhões daqui, ainda que tenha sido agora derrotado. Mas, até quando?

tropicalia-11.jpg A Tropicália tentou...

Pluralidade no pensamento é liberdade, porém cerceamento da liberdade e incitamento ao ódio segregador transgride qualquer razoabilidade. As perspectivas, sim, são sombrias.

A Tropicália foi um movimento libertário, em meio a um país sob as correntes da ditadura. Ela se inspirou com o que havia de melhor nos movimentos do outro lado do mundo, onde floresciam liberdade, psicodelia, paz, amor e tantas outras designações... e a música captava essa sintonia. Na minha opinião, perdemos os frutos essenciais dessas sementes, mas também eles fecundaram algumas possibilidades de mudanças.

ditadura.jpg A esperança em meio à ditadura

Hoje temos um país em completa desordem, onde ainda impera o trabalho escravo em certos rincões, e falta de trabalho também. Animais são submetidos ao confinamento e abate cruel, a saga extrema pelo lucro a qualquer custo prejudicando a saúde da população... o consumo por tabela de agrotóxicos, até o desequilíbrio ecológico resultante do extenso desmatamento para áreas de pasto. É um quadro aterrador de país, e real.

E que passa também por projeto para autorização de caça a animais silvestres teoricamente 'protegidos' ambientalmente, assim como à contínua expulsão dos índios brasileiros de suas terras. Que país é este???

É o mesmo país que certamente está representado pela podre política nacional, juntamente a um judiciário medíocre e corrupto, ungidos pela imprensa golpista que mostram do que é feito esta dita nação, e quais são as forças nem tanto ocultas que mandam por aqui. A apatia/alienação/conivência que se abate sobre o Brasil poderá ser irreversível, até porque estes representantes são eleitos por nós, a dita sociedade. A alternativa, essa ficou apenas na música de Raul Seixas.

patos.jpg

O que na verdade somos de fato? Será que não passamos apenas de patos manipulados pela mídia?

A realidade, a colorida e alienada, é de que o Brasil é... funk.

O texto acima não visa depreciar os estilos musicais citados, mas apenas confrontar a contemporaneidade delas no contexto histórico e real do Brasil.


Edgard Georges El Khouri

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas na realidade como única salvação urbana.
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