arquitexturas musicais e a vida...

Quando os sons que permeiam a vida arquitetam nossa forma de ser

Edgard Georges

Arquiteto e urbanista, adicto musical.

Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social.

Arquitexturas da Vida Cotidiana

Reflexões e pensamentos inerentes ao viver, divagações. As alegrias e desventuras do cotidiano consciente - ou a eterna busca dela, a consciência


HM.JPG Imagem retirada do longa "O Homem das Multidões", de Marcelo Gomes e Cao Guimarães

Vivemos atualmente tempos estranhos, para não dizer, sombrios... no Brasil e no mundo, e temos o reflexo desse comportamento nas mais diversas formas possíveis, seja nos relacionamentos do dia-a-dia quanto traduzido até na própria arquitetura, visível e perceptivelmente num simples caminhar (e relacionar) urbano, ao menos por aqui na outrora terra Tupiniquim.

Não há diálogos efetivos, apenas divergências ditas "irreconciliáveis" e aplicadas às diversas possibilidades de relacionamentos, sejam eles de ordem familiar, amorosa, política, de amizades... e por aí vai. Temperança, tolerância efetivamente não tem sido exercidas, observamos apenas reatividade em grande parte das vezes. Terreno fértil para desavenças múltiplas!

briga-casal.jpg A eterna disputa pela última palavra, intolerância

Não creio que aconteça apenas no Brasil, mas talvez por aqui esses sentimentos pesados se façam mais acentuados pelo grande contraste sócio-econômico-cultural presente em nosso país, que geralmente faz com que julgamentos apressados sejam proferidos sem a devida prévia análise dos fatos. Por aqui, um dos claros e evidentes reflexos na arquitetura - consequências concretas, facilmente observável, se traduz nas estéreis calçadas urbanas (quando transitáveis), com enorme e longos muros de construções dando as costas à cidade, espaço que vai se tornando cada vez mais um verdadeiro deserto urbano, resultado da falta de segurança pública que acomete as cidades. O Estado segue não cumprindo uma de suas funções mais básicas e primordiais.

muros.jpg Muros, extensos muros que segregam, desertificam a vida urbana ®El Khouri

Mas cabe dizer que também não é exclusividade de classes econômico-cultural contrastantes, pois muitas matizes ditas intelectuais divergem quanto ao básico e fundamental: o respeito. E quando o respeito está ausente num relacionamento, esse então é destruído. Acontece na arquitetura como na vida, no olhar urbano... nada resiste à falta de respeito.

monologo_interior.jpg Seríamos apenas capazes de concordar com monólogos interiores?

Fatos não corretamente cobertos pela grande imprensa - já que essa relevante mídia é responsável por enorme alcance nos lares brasileiros, promovem de certa forma o caos e a desagregação através da ausência de isenção jornalística e desinformação. Claro que isso não é exclusividade da grande imprensa, pois os meios ditos "sociais", as famosas “redes” e outros de menor alcance hoje também podem manipular corações e mentes. Verdadeiras trincheiras são erguidas, e aparentemente tudo passa a ser o "eu contra todos", "minha turma x os outros", "bem x mal" e assim por diante. Ou, de forma mais suave: e quando todos os aparatos tecnológicos apartam as pessoas nos encontros reais?

Getty Images Kevin Dodge.jpg A tecnologia reúne, agrega ou na verdade desagrega? Os não-encontros... Getty Images/Kevin Dodge

“Verdades absolutas” são defendidas de forma bélica: o filho que não fala com o pai (e vice-versa), casais entrincheirados, a prevalência da última palavra... difícil algum relacionamento sobreviver às disputas, às drogas que entorpecem relacionamentos, sejam na (má) qualidade da interação quanto as literais. O mundo anda tóxico de amizades, relacionamentos – digitais ou não, a sociedade entorpecida vai sucumbindo.

Virar as costas.JPG A falta de diálogo que determina fim de relacionamentos, abandonos ®Ana Paula Leonardo

Mas os sentimentos de frustração e ódio, que hoje (?) brotam com uma facilidade impressionante não podem ser explicados unicamente por quaisquer tipo de manipulações, há uma óbvia correspondência interior, portanto não terceirizemos responsabilidades! Os “demônios internos” são liberados e há uma correspondência com o exterior, “ideal” como pano de fundo. Conceitos de humanidade, coexistência pacífica e respeito são igual e facilmente esquecidos, às vezes até parecendo jamais terem existido. Incrível como se pode caminhar rapidamente ao que - sempre costumo dizer em conversas entre amigos - de que caminhamos a passos largos à uma Idade Média que a história cronológica do Brasil não nos permitiu viver. Pois é, talvez agora a tenhamos...

us.JPG Imagem retirada do vídeo original da música "Us And Them", do Pink Floyd

Há esperanças? Claro que sim, mas não existem soluções mágicas ou salvadoras, há somente aquilo o que a sociedade vem optando por rejeitar: efetivo diálogo, livre de quaisquer preconceitos, buscando primeiramente a ordem fundamental do ser humano, o diálogo franco. Deveria prevalecer o resgaste pelo respeito absoluto, seja pelas pessoas como pela natureza, não importando suas escolhas. E claro, quando um ambiente passa a ter essa interação respeitosa, essa consciência, as possibilidades e projetos de vida melhoram como um todo!

shapeimage_3.png Precisamos de encontros reais, humanos, falados... e respeito!

Se sou utópico naquilo em que eu penso e escrevo? Talvez... mas você, sinceramente, teria ou enxerga outra solução que não seja minimamente o diálogo respeitoso?

* As fotos ou ilustrações sem créditos (não encontrados) foram todas retiradas da internet


Edgard Georges

Arquiteto e urbanista, adicto musical. Gosto da incisividade, não no sentido ferino, mas no encarar a realidade da metrópole como única possibilidade da melhoria urbana e social..
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