arte entre histórias

Sobre histórias possíveis dentro de todas as formas de arte.

Ana Döring

Designer, apaixonada por cinema, escreve sobre filmes quando não está fazendo layouts

O cinema independente depois de Pulp Fiction

Vinte anos depois, uma análise de como Tarantino transformou o cinema independente com Pulp Fiction.


Pulp Fiction

Há vinte anos, faltando dois dias para o fim do Festival de Cannes, Quentin Tarantino exibiu Pulp Fiction. Recebido com aplausos de alguns, e vaias de outros, o que essas reações tinham em comum era que ambas derivaram do choque inicial de assistir a um filme completamente diferente de tudo feito até ali. Os filmes de Tarantino costumam ser assim, raros casos em que o espectador não consegue ter uma opinião neutra: através de suas proporções absurdas e curiosas, moldando a história por diálogos longos que prendem a atenção e conseguindo arrancar risadas em situações onde estas não costumam estar presentes, com seus usuais muitos litros de sangue, torna-se apenas natural que ou figure inúmeras listas de filmes preferidos ou exatamente o oposto disso.

Mesmo que hoje tenhamos a noção de que estes filmes se encaixam em um gênero à parte criado por Tarantino, nunca deixamos de ser surpreendidos. Seja por um personagem, por uma cena específica ou uma reviravolta no meio da história que a reescreve por completo, a mesma sensação de qualquer coisa pode acontecer permanece em todos os seus filmes. Assim, talvez seja um pouco mais fácil de entender o impacto de Pulp Fiction, porque continua sendo discutido até hoje e o quanto influenciou o cinema independente.

Todos os elementos do filme são fora do padrão, e é justamente o conjunto deles que faz com que funcione. Com um orçamento de 8 milhões de doláres, o projeto independente tem como primeiro elemento curioso sua escolha de elenco: na época, John Travolta seria a última escolha para estrelar qualquer filme, mas Pulp Fiction não só o transforma em um estrela de novo, como também lança Samuel L. Jackson e Uma Thurman, além de renovar a carreira de Bruce Willis. Com seu elenco improvável reunido, Tarantino coloca nos papéis principais figuras que não costumam estar lá: uma dupla de assassinos profissionais, um boxeador, um gângster e sua esposa, e um casal de ladrões. Ao contrário do que normalmente acontece em filmes, ele não se preocupa em posicionar os personagens típicos para o espectador, não existe um mocinho e nem um super vilão.

Pulp Fiction

Através de três histórias contadas inicialmente separadas, os personagens transitam por Los Angeles, que se torna uma outra personagem por si só, e eventualmente participam como coadjuvantes nas outras histórias, uma vez que começam a se entrelaçar. Elas são contadas por uma narrativa fora da ordem cronológica, mas só percebemos isso com um certo tempo de filme e, quando acontece, é como nos tirar da zona de conforto e nos obrigar a prestar mais atenção no que vai acontecer, porque não temos mais o controle básico de um enredo com início, meio e fim bem definidos.

Essa sensação de incerteza, com uma história que começa pelo meio, acompanhando personagens que não são nem o típico mocinho de boa índole e nem o vilão que quer dominar o mundo, mas sim aqueles que podem existir entre estes opostos, é o porquê de Pulp Fiction ter pego todos de surpresa. Estes personagens complexos e de comportamento imprevisíveis discutem sobre o teor sexual de massagens nos pés enquanto esperam o horário certo para invadir um apartamento, deixam suas referências ao cinema clássico e a cultura pop entre diálogos longos que não explicam a trama, mas nos conduzem a compreender melhor quem são. Esta forma de conduzir a narrativa faz com que suas cenas violentas possam transformar-se em cenas engraçadas: através do diálogo podemos rir de Vicent quando ele atirar sem querer na cabeça de um outro personagem no banco de trás de um carro, e continuar rindo quando ele e Jules começam a pensar em como vão limpar a sujeira.

Tarantino mostra a violência por ela mesma, deixando o espectador decidir o que pensa sobre ela, da mesma forma que o personagem ao utilizá-la, sabendo que terá de viver com as consequências desta, sejam elas quais forem. Assim, o filme transforma-se em uma crítica mais crua e pesada, mas sem nunca dizer o que obrigatoriamente deveríamos levar dele. Com seus oito milhões usados, arrecadou mais de 200 milhões de bilheteria e jogou luz sobre o cinema independente.

Pulp Fiction não é um filme que alguém poderia imaginar que seria feito, e continua sendo inovador até hoje. Ganhou o Palma de Ouro, prinicipal prêmio do Festival de Cannes, e recebeu sete indicações ao Oscar e mais inúmeros prêmios, mas sua prinicipal contribuição para o cinema, e o que faz com que seja referência até hoje, é o simples fato de lembrar a quem assiste e a quem faz filmes de que não só como possível, é também necessário que se arrisque a quebrar as regras dentro das quais a arte de se fazer cinema é compreendida. Porque cinema é um arte que busca analisar a sociedade o tempo todo e, da mesma forma que ela, precisa estar sempre em constante estado de mudança.

Publicado originalmente em CineOpinativo.


Ana Döring

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