arte entre histórias

Sobre histórias possíveis dentro de todas as formas de arte.

Ana Döring

Designer, apaixonada por cinema, escreve sobre filmes quando não está fazendo layouts

Interestelar e o humano na ficção científica

O uso da emoção em um filme com meios para não usá-la é o grande triunfo de Interestelar, seu roteiro tem falhas, mas é compensando por brilhantes atuações.


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Os filmes de Christopher Nolan são enigmas até que você os assista. O diretor sempre nos deixa ver apenas a superfície de suas histórias, fazendo com que elas se desenvolvam em arcos complexos que não havíamos imaginado assistindo a trailers ou lendo sinopses. Além de enigmáticas e surpreendentes, podemos ter certeza de que elas serão também inovadoras, e é o conjunto de todos esses elementos que transforma Interestelar em uma experiência única.

Carregado do peso das altas expectativas, em vista da elogiada filmografia de seu diretor, o filme acaba se mostrando muito mais amplo do que seus antecessores, não só em escala, e aqui é onde está realmente a surpresa, mas também em emoção. Nolan é tido como um diretor muito racional, que mantém seus filmes a uma certa distância de sentimentos, embora eles estejam sempre lá. Em A Origem, Cobb aceita um último trabalho para poder voltar para sua família, em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a principal motivação de Bruce para voltar a Gotham é uma frase que seu pai lhe disse quando era criança. O sentimento nesses filmes existe, quem não se aproxima deles são os personagens, focados e frios demais para conseguir fazê-lo.

A grande diferença de Interestelar é Matthew McConaughey, no papel de Cooper. Brilhante, permite a seu personagem demonstrar tudo que sente, destacando-se com uma performance absolutamente sensível. Sua relação com seus filhos torna-se, gradativamente, o ponto central da história, e em determinados momentos é ela quem conduz a viagem em busca de um novo planeta. Os personagens de Interestelar choram, riem, sentem raiva e demonstrar tudo isso lhes é permitido.

Somado a isso, o filme utiliza muito bem o tempo como um recurso dramático, uma vez que é relativo e passa de forma diferente para Cooper quando está no espaço. Há uma cena em que ele assiste à mensagens de seus filhos, enviadas para sua nave, e a câmera foca em seu rosto enquanto as vozes das mensagens preenchem nossos ouvidos, nos permitindo registrar a passagem do tempo da mesma forma que ele, em uma cena tão sensível que torna fácil dizer que é uma das mais emocionantes do filme.

Interestelar

O que tira o título de excelente de Interestelar é a forma como o roteiro encaixa as explicações teóricas do que seus personagens precisam fazer. Há momentos em que essas teorias são tantas, que o filme parece não ter certeza de que seu espectador vai entender o que está acontecendo, e decide jogar mais um conceito no meio de um diálogo só para garantir. Esse excesso acaba produzindo o efeito contrário, deixando a história mais confusa, porque não há tempo para digerir um informação antes de receber outra.

Felizmente, os pontos problemáticos do roteiro são salvos por elementos que ajudam a realidade do filme a se moldar em uma que é possível acreditar: no cenário futurístico, há camadas espessas de poeira sobre qualquer superfície, enquanto a comida torna-se escassa, e a população a beira de um colapso se adapta como pode. No espaço, as cenas são grandiosas, detalhadas e belíssimas, a forma como foram filmadas no formato IMAX tornando fácil nossa imersão, acompanhadas da trilha sonora inspiradora de Hans Zimmer e, ocasionalmente, do absoluto silêncio do espaço, usado de forma tão inteligente que funciona também como um elemento dramático.

Transformar um filme de ficção científica em um tão pessoal quanto este é talvez o grande triunfo aqui. Sua surpreendente sensibilidade nos leva para uma história que vai além das teorias e nos entrega exatamente uma experiência única e, acima de tudo, muito humana.

Publicado originalmente em CineOpinativo.


Ana Döring

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