arte entre histórias

Sobre histórias possíveis dentro de todas as formas de arte.

Ana Döring

Designer, apaixonada por cinema, escreve sobre filmes quando não está fazendo layouts

Os desencontros de Simplesmente Acontece

Ainda que com um enredo um tanto quanto previsível e desencontros em excesso, o filme tem personagens complexos e interessantes que conseguem passar por esses problemas para entregar uma história apaixonante, fácil de se relacionar e que nos deixa, inevitavelmente, torcendo por todos seus clichês.


Simplesmente Acontece

Filmes de romance não têm tido uma campanha a seu favor ultimamente. Eles costumam ser previsíveis e não deixam muito mais para discutir depois que acabam mas, como eu não consigo desistir deles, resolvi assistir Simplesmente Acontece. Felizmente, mesmo entre excessos de desencontros e um casal com o pior timing do mundo, consegue construir uma história relevante, com personagens que conseguiram fazer com o que eu me importasse com eles, o que é um grande avanço em vista do que eu tinha assistido até então.

O filme começa da forma fácil de imaginar: os dois personagens principais, Rosie e Alex, são melhores amigos desde crianças, e estão naquela clássica situação em que parece óbvio para todo mundo, menos para eles, o quanto estão apaixonados um pelo outro. Os elementos típicos de comédias românticas estão todos lá e, enquanto a história se desenrola, é uma pena que ocupem uma parte tão grande, porque debaixo de todo o clichê e situações que “é claro que iriam acontecer”, existem personagens interessantes, complicados, engraçados e amáveis, com quem conseguimos nos relacionar e torcer para que tenham um final feliz.

Algum tempo atrás, assisti um filme do Hugh Grant onde, não importava quão problemática sua situação se tornava, eu não conseguia me importar com seu personagem – só conseguia pensar em como, a qualquer momento, uma solução perfeita e incrivelmente simples surgiria e tudo se resolveria em alguns dez ou quinze minutos. E, claro, aconteceu exatamente isso e tudo ficou bem. Poderia até atribuir isso ao fato de que tem sido bem fácil imaginar o que vai acontecer em um filme que tenha o Hugh Grant (mesmo que eu goste muito de vários deles), mas eu acho que o motivo real é que ele e seus amigos nunca foram interessantes o suficiente.

Simplesmente Acontece

Enquanto não consegue se sustentar tão bem com suas reviravoltas, Simplesmente Acontece se apoia em seus personagens carismáticos para fazer com que as situações não sejam assim tão impossíveis. Porque, o ponto principal, é que você só se importa com um problema, se você se importa com o personagem e as consequências que ele pode sofrer por causa deste. Rosie e Alex não fazem muito diferente de mim, você ou qualquer conhecido: erram um monte de vezes, acertam outras tantas, insistem em alguns erros, correm para reparar o que dá, e tem as felicidades e tristezas da vida entre e por causa de todos esses erros e acertos. É a aproximação dos personagens com as nossas experiências que faz com o que o filme funcione.

Simplesmente Acontece tem uma história com tantos problemas sobrepondo uns aos outros que eles deveriam ser muito mais cansativos do que realmente são, mas a química de Lily Collins e Sam Claflin faz com que tornem-se mais fáceis de contornar. A fotografia, usando cores vivas, garante alguns enquadramentos realmente bonitos, e a trilha sonora tem ótimos momentos. De uma forma mais leve do que esperava, o filme consegue fazer até com que o espectador mais resistente torne-se, talvez, um pouquinho menos cético quanto a todos aqueles clichês. Pode usar a pessoa que escreve como exemplo.

Publicado originalmente em CineOpinativo.


Ana Döring

Designer, apaixonada por cinema, escreve sobre filmes quando não está fazendo layouts.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Ana Döring