arte entre histórias

Sobre histórias possíveis dentro de todas as formas de arte.

Ana Döring

Designer, apaixonada por cinema, escreve sobre filmes quando não está fazendo layouts

Mad Max: Estrada da Fúria e questões sociais no mundo pós-apocalíptico

Uma análise de como o universo surreal de Mad Max, através de todo seu excesso, consegue pontuar e trabalhar questões sociais e atuais, criando um filme que, além de ser visualmente incrível, é também incrivelmente relevante.


Mad Max: Estrada da Fúria

A característica mais notável de Mad Max: Estrada da Fúria é seu excesso. Carros tão modificados que parecem saídos de quadrinhos, cobertos de espinhos ou feitos inteiramente de amplificadores com um guitarrista preso a seu topo por cordas enquanto a parte de trás é preenchida por tambores, outro feito de dois carros e mais um com cabos onde os guerreiros que não viajam nos tetos, ficam pendurados, além de motoqueiros que jogam bombas no ar enquanto saltam de um ponto a outro, todos eles dirigidos por seres humanos que se transformaram em adoradores de figuras relacionadas ao automobilismo, frutos de uma sociedade que sobrevive com o que lhe sobrou e o que lhe falta. Eles transitam por um deserto sem fim, com cores que variam em tons vibrantes de laranja durante o dia e azul à noite, travando uma guerra por um ditador que nada faz por eles senão controlar suas necessidades a fim de manter a sociedade quebrada a seu favor.

“Enquanto o mundo desmoronava, era difícil saber quem era mais louco: eu, ou todos os outros”, é a frase dita pelo personagem-título, Max, e torna-se uma boa forma resumida de apontar como o excesso é tratado aqui. Ele não é exclusivo ao ambiente que cerca estes personagens, mas faz também parte deles, que são tanto causa quanto consequência do mundo em que vivem, claramente calejados pelas dificuldades que os assolam, tendo em sua maior parte perdido esperança e crença em algo que não seja a guerra, uma vez que não conhecem uma realidade que não seja esta, movidos pelo puro instinto de sobrevivência intrínseco ao ser humano.

Mad Max: Estrada da Fúria

Depois que a Máquina de Guerra, carro dirigido pela Imperatriz Furiosa, sai em uma de suas missões, secretamente levando as cinco mulheres que eram mantidas presas pelo vilão, Immortan Joe, como suas escravas sexuais e geradoras de seus filhos, o tempo torna-se uma preciosidade muito grande para que seja desperdiçado com questionamentos pequenos, desenrolando-se em uma corrida insana onde Max e Nux, um guerreiro, ainda irão se juntar a Furiosa e as cinco esposas e, uma vez que se aceita que, sim, este é tipo de mundo pós-apocalíptico onde guerras são travadas nos topos de carros e em alta velocidade, abre-se espaço para lidar com questões muito mais interessantes e relevantes. Assustadoramente, a essência do mundo como o conhecemos hoje paira sobre cada situação, e é justamente isso que as torna tão incômodas – ainda que sejam muito exageradas, elas não são de todo impossíveis.

George Miller leva questões sociais e atuais para seu universo através destas situações e nos coloca de frente para elas, às vezes de uma forma muito direta, como pichações na parede com os dizeres “Não somos coisas”, e de forma um tanto quanto mais sutil (o mais sutil que se pode ser aqui), quando um personagem diz à população para não se tornar viciada em água. Essas situações se tornam próximas da nossa realidade porque os personagens que as vivem também são próximos, não visualmente, mas emocionalmente. Eles sofrem abusos, são mulheres endurecidas por uma sociedade dominada por homens, obrigadas a deixar seu feminino de lado para conseguir sobreviver, são guerreiros que esperam a chance de ir à batalha para se provarem dignos de seu líder, dispostos a se sacrificarem por um paraíso inventado pelo mesmo que os escraviza, são ditadores cegos por um poder sobre uma população miserável.

As motivações giram em torno de água, petróleo, sobrevivência, controle e uma necessidade também inerente ao ser humano de identificação, aqui demonstrada através de carros que se tornam uma extensão da personalidade de quem os dirige, assim como os nomes são sempre compostos por um adjetivo. A pergunta “Quem matou o mundo?” é feita por Angharad, a esplêndida, uma das cinco esposas, para um dos guerreiros. Ela nos faz questionar até onde nossos costumes podem levar nossa sociedade, o quanto a intolerância pode determinar o que é ou não aceito e quão nociva ela pode ser.

Não por acaso, o filme despertou a ira de alguns homens ao retratar mulheres comandando carros e tomando decisões por elas mesmas, de todas as coisas que poderiam chocar nesta história. Em uma entrevista, o ator que interpreta Max, Tom Hardy, foi questionado sobre o roteiro – não havia mulheres demais para um filme de homens? – e respondeu com um simples “Não.” Em um filme onde todos os exageros estão presentes e extrapolam qualquer barreira da normalidade que poderia existir, parte da nossa sociedade ainda gera drama sobre uma decisão que a história nunca questiona, assim como também, acertadamente, nunca coloca nenhuma das mulheres como personagens que precisam provar seu valor.

Mad Max: Estrada da Fúria

Mas, mesmo nesta sociedade instável, composta de restos do que um dia foi uma civilização, alguns dos personagens conseguem encontrar motivações que atravessam a crueldade do mundo, deixando aparecer a coragem de não mais ficar a mercê de um tirano, de reunir esperança para acreditar que existe um lugar melhor, de conseguir confiar que a outra pessoa, ao contrário de todo o resto, quer de fato ajudar.

A relação de Max e Furiosa, de inimigos até companheiros de batalha, é uma das poucas coisas que não explode. Eles levam seu tempo, trocando pouquíssimas palavras, mas criando confiança através de ações em seus embates contra Immortan Joe. Nux evolui de uma mentira vendida por seu líder para chegar às suas próprias conclusões, escolher um lado e se revoltar contra o ditador, em uma evolução de personagem brilhante, assim como as cinco esposas só vivem o estereótipo de donzela indefesa por um curto espaço de tempo, logo permitindo que suas personalidades apareçam. Todos eles encontram uma humanidade que talvez não mais soubessem que tinham, afinal esta é outra característica inerente à qualquer indivíduo.

Publicado originalmente em CineOpinativo.


Ana Döring

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